Camané & Mário Laginha

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27 June, 21:30

Agora, é raro cantar-se o fado com acompanhamento de piano, mas houve um tempo – o Séc. XIX e os inícios do Séc. XX - em que isso era comum. Que se saiba, a primeira fadista que se acompanhava ao piano (e à guitarra portuguesa, que ao que se diz ela tocava ainda melhor que a Severa) foi uma famosa prostituta e fadista de nome Carlota Scarniccia que tinha como alcunha “Escarniche”, assim uma mistura foneticamente próxima do seu verdadeiro apelido que estava entre o “escárnio” e o “caniche”. Nascida no meio de uma família italiana da alta sociedade de Lisboa, a menina Carlota teve uma esmerada educação – o que, na altura, incluía obrigatoriamente a aprendizagem de instrumentos musicais – mas derivou, no início da idade adulta, para a prostituição, o meio natural dos fadistas dessa altura: as classes mais baixas, pobres e problemáticas, onde se cruzavam prostitutas, proxenetas, ladrões, marinheiros, rufias em geral; gente dona de naifas (e línguas) aguçadas, calão próprio e orgulhosas tatuagens. Gente que cantava, tocava, batia e dançava o Fado (tal como noutros portos de todo o mundo se fazia também por esta altura com o tango, a rebetika ou a canção napolitana)
E foi tal o escândalo, que a própria família Scarniccia pagou um anúncio de jornal, em 1847, que rezava assim: “Tendo aparecido em Lisboa uma rapariga com o apelido de Scarniccia, declara-se que não pertence a semelhante família, nem o dito apelido é o seu”. Era o tempo em que as fadistas mais famosas tinham todas esta profissão – a mítica Maria Severa Onofriana, a Custódia, a Joaquina dos Cordões, a Chicória, a Borboleta… O fenómeno era de tal forma generalizado que foi notícia, em 1860, a primeira fadista conhecida que o não era: a (também) mítica Cesária, operária em Alcântara, então o maior centro industrial de Lisboa. E, só para terminar a história da Scarniccia: se são raros os casos de fadistas que se acompanham ao piano – e mais nestes vinte anos do Séc. XXI do que em todo o século passado – são ainda mais raros os de fadistas famosas que cantam e tocam guitarra portuguesa. Mulheres há três (e mais um bocadinho): a Severa, a Scarniccia e, já na primeira metade do Séc. XX, Maria do Carmo, que tinha como petit-nom, digamos assim, “Alta”, enquanto na actualidade Raquel Tavares toca um bocadinho nos seus concertos. E, se formos aos homens, ainda são menos: Carlos Ramos e, depois, D. Vicente da Câmara.
Mas, principalmente em finais do Séc. XIX e início do Séc. XX, havia muito mais gente anónima que tocava piano e cantava fado, mas no interior da sua própria casa e para consumo interno de familiares e amigos: na corte, nas casas nobres um pouco por todo o país e na burguesia – as classes sociais que tinham poder de compra para ter o luxo deste instrumento – era moda, após a introdução do gosto do fado nestas camadas da hierarquia nacional pelo Conde de Vimioso (alegado amante da Severa), quase toda a gente cantar e tocar ao piano os seus fadinhos. E fados que lhes chegavam através de pautas editadas por casas editorais como a Sassetti; a mesma em que seria gerado, décadas depois, um dos mais talentosos pianistas portugueses, Bernardo Sassetti, que tocou muitas vezes em duo com Mário Laginha (e em trio, com este e Pedro Burmester). Também por isso, a guitarra portuguesa (a que muita gente chamava “pianinho”, por ser obviamente mais leve e portátil que o piano mas também por ser um instrumento de pobre) ganhou espaço entre os nobres: João Maria dos Anjos, célebre guitarrista da viragem desses séculos terá dado aulas ao rei D. Carlos, à rainha e às infantas.
No início dos anos 60, o piano regressaria triunfal ao fado, mas de forma algo enviesada e… genial! Um francês “nascido no Dafundo” – ainda hoje a família dele, nascido em 1928 e falecido em 1990, habita um palácio nesta localidade colada a Algés -, de seu nome Alain Oulman, terá sido apresentado a Amália Rodrigues pelo poeta Luís de Macedo, pseudónimo de Luís Chaves de Oliveira, diplomata de profissão. E foi sobre um poema deste – “Vagamundo” - que Oulman escreveu o primeiro fado, ao piano, para dar a cantar a Amália. Muitos outros poetas depois, e ainda mais canções (não é aqui o lugar para as listar), Oulman iria compor para a nossa maior fadista de sempre. O importante, aqui, é referir que alguns dos músicos de Amália, a quem Oulman ensinava a transpor as partituras escritas ao piano para as guitarras, diziam quando no início ensaiavam esses temas que “iam às óperas”. Mas a verdade, no entanto, é que essas canções de Oulman deram nova vida a Amália, ao seu reportório e ao próprio Fado (porque, não sendo fados, são agora clássicos absolutos do género). E o piano dele pode ouvir-se, mesmo, em algumas gravações d’Ela.
E quem é que canta fados ao piano? Dulce Pontes, Maria Ana Bobone, Mário Moita, por vezes Carlos do Carmo com António Victorino d’Almeida e Cristina Branco com Ricardo Dias, Júlio Resende (com a voz fantasmática de Amália e algumas outras, vivas, a ajudar) e, agora também, Ricardo Ribeiro com João Paulo Esteves da Silva, como agora se pode ouvir igualmente nesta edição do Med de Loulé… Poucos mais, mesmo.
Mas, entre os poucos mais, estão também aqueles que – para bom entendedor – são os verdadeiros protagonistas deste texto: o melhor fadista da sua geração e o melhor pianista de jazz da mesma geração: Camané (nascido em 1966) e Mário Laginha (nascido em 1960). Dois talentos gigantescos, dois homens com longas carreiras que falam por si, dois artistas abertos a muitos outros géneros musicais que não os do seu mister principal. Camané fez parte dos Humanos, onde cantava inéditos de António Variações; colaborou várias vezes com os Dead Combo, Jorge Palma e Xutos & Pontapés; e, last but not the least, no primeiro concerto que deu a solo fora do contexto do fado, em 2007 e acompanhado por um quinteto de músicos de jazz (o pianista era o já referido Júlio Resende), cantou uma composição de Mário Laginha, “Ai Margarida” (poema de Álvaro de Campos/Fernando Pessoa).
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Já Mário Laginha – que, tal como Camané, de quem foram editados quatro EPs quando tinha 13 anos, foi um jovem prodígio, começando a tocar nos circuitos do jazz muito cedo – foi parceiro da cantora Maria João durante cerca de trinta anos e é sabido como tanto ela como ele nas suas sucessivas aventuras partiam do jazz para a música africana, brasileira, oriental, portuguesa, experimental, erudita, exploratória… E, para além de ter dedicado espectáculos e discos ao reportório de José Afonso ou à recriação de peças de Bach e Chopin, teve a sua primeira experiência de cruzamento de jazz com o fado exactamente com Camané (e o falecido Bernardo Sassetti), em 2008. Esse espectáculo chamava-se “Vadios” e este agora, o que os dois vêm apresentar ao nosso festival, tem por nome “Aqui Está-se Sossegado", em que os fados de Camané e muitos tradicionais servem de base à maior parte do programa, mas onde composições próprias de Mário Laginha também têm o seu lugar. É esperar, ansiosamente, para ver e ouvir!









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