DHAFER YOUSSEF

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27 June, 23:30

O oud é um instrumento árabe, de origem muito antiga - pensa-se que terá nascido, na Babilónia, por volta do ano 1800 antes de Cristo -, e é graças a ele que na língua portuguesa existe a palavra alaúde (al-oud; o úde). Popular em todos os países árabes do norte de África e da bacia mediterrânica até ao Índico, mas também na Turquia Grécia, Azerbeijão e Arménia, o oud deve a sua actual forma (e até o número de cordas) ao grande senhor da música árabe, ibérica e mundial: Zyriab (nome que, não por acaso!, também baptizou um grupo formado pelo protagonista deste texto, o grande mestre tunisino do oud Dhafer Youssef). E, de Ziryab, vale a pena contar um pouco da sua história, recorrendo para si a um maravilhoso texto de Pavel Urkiza, publicado originalmente (em espanhol) na revista digital Pura Mestiza:
“No ano 822 D.C., chegou a Córdova, capital do Al-Andalus durante o Califado de Abd al-Rahman, Abulhasán Ali ben Nafi, mais conhecido como Ziryab, “Melro” em árabe; pássaro negro. Assim lhe chamaram devido à sua intensa pele morena e à profunda beleza da sua voz. Nascido em Bagdad em 789 D.C., filho de escravos libertados, quis escapar da vida dos seus pais, reconvertidos em comerciantes, e embora respeitasse as regras do Islão, preferiu os prazeres que lhe proporcionavam a música, o vinho, a comida, o amor e o cultivar da mente. Ishaq al-Mawsulí (767-850 D.C.), o músico preferido do califa de Bagdag Hurun al-Rashid, foi o seu mestre nas artes musicais e também o causador do seu desterro. O imenso talento do seu discípulo provocou-lhe um impacto muito mais forte que a sua bondade. Ziryab chegou a construir o seu próprio Oud, ao qual juntou uma quinta corda às quatro originais. Também começou a usar uma garra de águia para as pressionar, em vez do plectro tradicional de madeira, o que redundou num som mais intenso e profundo do instrumento (…)”.
“(…) O destino quis então que Ziryab viesse a ser o fundador das diversas tradições musicais da Espanha muçulmana, a pessoa que concebeu em Córdova o que poderia considerar-se o primeiro Conservatório de Música do mundo islâmico e, quiçá, do Ocidente no ano de 850 D.C. Desenvolveu um estilo próprio e alimentou uma tradição que ainda hoje está viva no mundo muçulmano. A sua memória foi capaz de registar mais de dez mil canções e os seus avanços técnicos transformaram profundamente a arte musical da época. Com o seu génio revolucionou a música. E assim abriu um caminho, como uma semente plantada que germinou e se multiplicou ao longo do tempo, modelando e originando uma identidade cultural”.
A citação é longa, mas necessária, porque assim conseguimos perceber porque é que nós, portugueses (e espanhóis), em que muito sangue mouro nos corre ainda e para sempre nas veias, nos sentimos tão próximos, tão atraídos e tão identificados com a música árabe e, especialmente, com as sonoridades próprias do oud. Noutro texto deste site, aquele que se refere a Ricardo Ribeiro com João Paulo Esteves da Silva, fala-se mais aprofundadamente sobre a ligação do fado (e da música tradicional das Beiras, do Alentejo e do Algarve) à música árabe. Neste, resta-nos ainda uma nesga de espaço para falar desse fascinante músico, cantor e compositor chamado Dhafer Youssef.
Descendente de uma longa linhagem de muezins (o muezim ou almuadem é o homem que, do alto dos minaretes das mesquitas, chama os fiéis muçulmanos à oração), Dhafer Youssef nasceu em Téboulba (cidade piscatória da Tunísia) em 1967. E, ainda antes de se ter descoberto enquanto tocador de oud, descobriu a sua… voz. Uma voz, a do jovem Dhafer, que foi gravada pelo almuadem da sua mesquita para ser usada como chamamento à oração. Fez parte do grupo vocal da Radio Monastir, estudou canto, oud e musicologia na capital do seu país, Tunis, e depois em Viena, Áustria. Foi já na Europa que, seduzido por outros géneros musicais – para além da música tradicional árabe - como o jazz, a música indiana e paquistanesa, começou a tocar regularmente, fundando comn o percussionista austríaco Gerhard Reiter a sua primeira banda, Zeryab (pois!). E, depois disso, foi um nunca mais acabar de concertos, álbuns e cruzamentos (em todo o mundo e com gente de todo o mundo).
Companheiro (em disco e/ou ao vivo) de outros grandes músicos como Anton Burger, Achim Tang, Jatinder Thakur, Otto Leichner, Nguyen Lê, Paolo Fresu, Markus Stockhausen ou Patrice Heral, ele edita os seus dois primeiros álbuns, “Malak” (1999) e “Electric Sufi” (2001), o primeiro em que a sua música se aproxima de ambientes mais eléctricos e electrónicos. Continuando sempre a partilhar a sua música com outros, ao longo deste novo século Dhafer Youssef tocou igualmente com Nils Petter Molvaer, Zakir Hussain, Dave Holland, Ballake Sissoko Uri Caine, Tigran Hamasyan, Jon Hassell, Omar Sosa, Hüsnü ?enlendirici, Anna Maria Jopek, Richard Bona, Mino Cinelu Herbie Hancock ou Wayne Shorter.
E, de forma constante, muitos outros discos que já fazem parte da História do Oud e da História das Fusões de (muitas) Músicas do Mundo: “Digital Prophecy” (2003), “Divine Shadows (2006), “Glow” (2007; em duo com Wolfgang Muthspiel), “Abu Nawas Rhapsody” (2010), “Birds Requiem” (2013), “Diwan of Beauty and Odd (2016) e, o mais recente, “Sounds of Mirrors” (2018). Isto, se não contarmos com álbuns em colaboração com outros músicos – alguns deles já atrás citados – como “Blue Planet – Peace for Kabul” (1997), “hot ROOM” (1998), “Exile” (2003), “Odem” (2005), “Homescape” (2006), “Jo & Co” e “Latitudini – Omaggio Alla World Music” (ambos de 2008). E, no cinema, o seu oud e a sua música também podem ser ouvidos nas bandas-sonoras de filmes como “Black Gold”, de Jean-Jacques Annaud, “O Fantástico Homem-Aranha”, de Marc Webb, “Luna”, de Dave McKean e "Exodus: Deuses e Reis", de Ridley Scott. É uma felicidade enorme podermos tê-lo no Festival Med.










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