GISELA JOÃO

Stage: Chafariz Map
28 June, 22:00

Os fãs – no sentido de fanáticos, mesmo! – de Gisela João estão já ansiosos, a salivar por antecipação e permanentemente nervosos com aquele que, diz-se diz-se diz-se, vai ser o terceiro – se não contarmos com o disco perdido “O Meu Fado”, de 2008 - álbum de originais de Gisela João, a editar daqui a uns meses. Sim, nós sabemos que ela fica igualmente ansiosa, tensa e com os nervos em franja sempre que tem que escolher reportório para um novo disco e, depois, gravá-lo. Mas também sabemos que vai correr bem, muito bem! Gisela – depois de ter colaborado em estúdio ou ao vivo com inúmeras pessoas até 2016, quando saiu “Nua”, como Paulo de Carvalho, Nicolas Jaar, Sérgio Godinho, Joss Stone, Linda Martini, Snarky Puppy ou Capicua (a amiga que também contribuiu com dois temas para este segundo álbum) - tem andado a cantar em discos de natureza mais electrónica e/ou próximos da cultura hip-hop com Xinobi e Stereossauro mas também com a Orquestra Clássica do Sul, a Filarmonia das Beiras ou com o Grupo Etnográfico de Danças e Cantares do Minho (de onde ela saiu, a partir de Barcelos, para o Porto, Lisboa e… o Mundo). E, em Dezembro passado, protagonizou espectáculos especiais com canções clássicas de Natal norte-americanas, onde tal como nos outros se sentiu como peixe na água.
Porque, nesse aspecto como nalguns outros, ela é mesmo como Amália. É espantosa a maneira como ela pega na ranchera mexicana “La Llorona” ou nas duas canções do brasileiro Cartola (todos incluídos em “Nua”) e as transforma facilmente em… fados. De resto, essa capacidade rara – e que só tem paralelo em Amália Rodrigues, quando ia às rancheras, flamencos, músicas brasileiras, standards norte-americanos e até ao folclore português – já estava bem patente em muitos temas cantados por Gisela quer em “Canções Urbanas” (ao lado de Helder Moutinho e JP Simões) quer no seu espectáculo “Caixinha de Música”, onde cantou temas, por exemplo, de Violeta Parra, Amy Winehouse, Leonard Cohen ou Nick Cave -, quer em algumas das suas colaborações já referidas e até em muitos dos pequenos “clips” que costuma pôr no seu Facebook, onde costuma “afadistar” ou “agiselar” pequenos pedaços de inúmeras canções.
Porque, nós sabemos, Gisela é capaz de navegar por muitas águas mas, vai-se a ver, e quando ela se sai com um novo disco aquilo é tudo fado, é sempre fado, é excelente fado. No Verão de 2013 – mais ou menos um ano antes do seu primeiro espectáculo no Med de Loulé, ao qual este ano regressa para nosso grande orgulho – saiu o seu álbum de estreia oficial, “Gisela João”, e foi um estrondo. António Pires, em crítica para a revista BLITZ, escreveu: “Dizer-se que o álbum homónimo de Gisela João é o melhor disco de estreia de um ou de uma fadista em vinte ou trinta anos pode ser um exagero. Ou então não, porque desde há dezenas de anos que não se ouvia um fado assim, tão próximo das raízes, tão sem truques - em Gisela João não há cá convidados ilustres nem instrumentos estranhos à matriz tradicional do fado (contrabaixos, saxofones, pianos, etc, etc...) - e, acima de tudo, tão bem cantado, tão bem interpretado e tão emotivo”. E Miguel Esteves Cardoso foi ainda mais longe: “Amália Rodrigues foi a grande fadista do século XX. Quando a ouço no Com que voz tenho a certeza absoluta que foi a única fadista do século XX. Amália, apesar de não gostar de ser (só) fadista, foi a primeira e única pessoa (e voz) do fado. Sei e sinto, com a mesma força, que Gisela João é a grande fadista do século XXI. O século ainda agora começou, mas já é dela. Quando eu nasci, Amália já era um milagre. Já o milagre de Gisela João e do primeiro disco dela aconteceram no meu dia-a-dia”.
Escreveram eles e, no mesmo sentido, a generalidade dos jornalistas de música deste país – e até alguns estrangeiros – porque não se poderia ter escrito outra coisa. E é tão difícil uma unanimidade assim em relação a um disco de estreia de um artista ou grupo. Nem no fado, nem no rock, nem noutras áreas, mesmo aquelas que até “tocavam” os dois universos: mesmo a euforia generalizada que foi a edição de “Os Dias da Madredeus” foi logo quebrada por dois jornalistas de música muitíssimo importantes. João Lisboa chamou ao grupo “o Mateus Rosé da música portuguesa” e o saudoso Fernando Magalhães disse que aquilo era “fado de câmara”. E isso foi conseguido pela “miúda do Norte” em menos de nada com “Gisela João”, depois do tal disco desaparecido gravado no Porto mais um disco em que era vocalista dos Atlantihda – onde se cruzou pela primeira vez com Frederico Pereira, o produtor doa álbum de estreia da fadista e de “Nua” (já agora, e a talho de foice, refira-se que há ainda mais discos, ao vivo, dela: “Sem Filtro” e “Ao Vivo”, ambos de 2015).
E, depois, também em “Nua” não desiludiu. Nesse álbum de 2016 Gisela João saiu-se airosa, coerente e brilhantemente bem do desafio do “difícil segundo álbum”. Não fez algo de diferente - ou de substancialmente diferente – do primeiro, mas fez tudo em melhor. Nele, a voz, a produção e os arranjos de Frederico Pereira e, na altura, a cada vez mais marcante e inventiva guitarra portuguesa de Ricardo Parreira, as seguríssimas prestações de Nelson Aleixo (viola) e Francisco Gaspar (viola baixo), que faziam a cama perfeita para que o génio vocal de Gisela pudesse mostrar todo o seu potencial… O texto está quase a acabar e ainda não se falou de nenhum dos fados ou quase das canções de Gisela mas isso também não é preciso! O que é preciso é voltar a recebê-la de braços aberto no nosso palco, soltar algumas livres palavras e com pronúncia do Minho (ou do Porto, tanto faz) e, sim, arrepiar-nos de novo dom “O Meu Amigo Está Longe”, dançar ao som do “Bailarico Saloio” ou rir que nem perdidos enquanto faz a coreografia de “O Sr. Extraterrestre”. Sejas re-bem-vinda, Gisela!









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