JÚLIO PEREIRA

Stage: Castelo Map
27 June, 23:00

"Que razões para um ancestral, pequeno e singelo - quase rudimentar - instrumento tradicional de quatro cordas ser hoje, numa escala global, personagem relevante de expressões artísticas contemporâneas?
É que, de facto, num mundo de músicas e de músicas do mundo, a força que têm o Brasil ou Cabo-Verde é inseparável da presença acústica do cavaquinho; e o americano ukulele do Havai, neto migrante do tetracórdio português - adiante se verá porquê neto e não filho -, é actual protagonista de um poderoso movimento musical no Mundo, sem que o seu vetusto e sempre cantante avô, o cavaquinho minhoto, deixe de ser tocado no noroeste português de forma única, irrepetível em qualquer outro instrumento de corda."
Estas são as primeiras palavras de João Luís Oliva escritas no livreto do CD “Cavaquinho.pt”, de Júlio Pereira, editado em 2014. E se o título desse álbum remetia para o mítico “Cavaquinho” lançado por este músico nos já longínquos idos de 1981 – um disco de inesperado enorme sucesso popular – o que se seguiu, “Praça do Comércio”, de 2017, continuava a honrar o legado desse álbum primordial da nossa música popular e tradicional: sejamos claros, “Cavaquinho”, editado no início dos anos 80 do Séc. XX salvou este instrumento tradicional da extinção e foi graças a Júlio Pereira que muitíssimos outros músicos voltariam ou começariam a tocá-lo, preservando assim e por arrasto velhas cantigas e até a profissão de muitos construtores deste pequeno mas tão rico instrumento. Um pouco à semelhança do que Paulo Marinho faria pouco tempo depois quando uma gaita-de-foles caiu no rock (os Sétima Legião), salvando-se da morte generalizada, ou ainda depois o que Pedro Mestre faria com a com a alentejana viola campaniça.
Sobre “Praça do Comércio”, o álbum em que o cavaquinho continua a ser protagonista e que Júlio Pereira vem apresentar ao Med, juntamente com temas dos anteriores que têm o mesmo principal foco instrumental, escreveu António Pires na revista BLITZ: “Homem que partiu do rock (Petrus Castrus, Xarhanga…) para a convivência, e durante muitos anos, com os maiores cantautores nacionais – principalmente José Afonso -, no seu terceiro álbum dedicado ao cavaquinho [Praça do Comércio, *****, Tradisom], Júlio Pereira volta a assinar uma obra maior e exemplarmente construída em que parte do Minho para o Mundo (música africana, árabe, havaiana, brasileira, com passagem por José Afonso e os seus “Índios da Meia Praia”), com a ajuda de imensos cúmplices (dos companheiros habituais Miguel Veras e Sandra Martins*) a Pedro Jóia, António Zambujo, José Manuel Neto, Luís Peixoto, José Manuel Neto, Olga Cerpa ou James Hill). A música é um luxo… e o embrulho (em CD ou LP) também”. *Nota: Os mesmos que estarão com ele em palco no nosso festival, com Miguel Veras a tomar conta das guitarras e Sandra Martins do violoncelo. Não por acaso, Júlio Pereira é o fundador da activíssima Associação Cavaquinho e o
Mas não se pense que Júlio Pereira foi apenas o “salvador” do cavaquinho: dois anos depois, apesar de não ter tido o mesmo impacto junto do público, ele foi também responsável – com o álbum “Braguesa” pelo ressurgimento da viola minhota que leva este nome; a mesma que agora se pode ouvir na música de dois dos nossos nomes desta edição, Omiri e Diabo na Cruz, mas também nos Atlantihda, Lusitanian Ghosts e Toques do Caramulo, ou tocados por B Fachada, Chico Gouveia ou Amélia Muge.
Não por acaso, Júlio Pereira é o fundador da Associação Cavaquinho e o protagonista da série documental “Júlio Pereira e os Homens do Cavaquinho”, de Ivan Dias, que traça o retrato resumido do cavaquinho através do mundo. Um mundo que não se resume aos países já referidos – Portugal, Brasil, Havai, Cabo Verde, Indonésia – mas também a ele inteiro quando via ukulele se vêem Carmen Miranda e Eddie Vedder, Tiny Tim e Marilyn Monroe, Pete Townshend e Taylor Swift, Israel Kamakawiwo’ole (ok, este era havaiano mas ficou tão famoso que…) e Joni Mitchell, Bruce Springsteen e Robert Plant, já para não falar dos três Beatles que tocavam ou ainda toca (o que está vivo, claro) instrumentos de cordas: George Harrison, John Lennon e Paul McCartney.
Tendo tocado ao longo da sua carreira com alguns dos mais importantes nomes nacionais – o já referido José Afonso, Vitorino, Fausto, Sérgio Godinho, Janita Salomé, José Mário Branco, Carlos do Carmo, João Afonso, Sara Tavares… – Júlio Pereira também já partilhou estúdios de gravação e palcos com grande nomes da música internacional, dos irlandeses The Chieftains (foi convidado no álbum, vencedor de um Grammy, “Santiago”) a Kepa Junkera, o mestre da trikitixa basca com quem gravou em duo o álbum “Lau Eskutara”, de Pete Seeger a Chico Buarque, dos galegos Na Lua ao andaluz António Portanet. Com uma discografia assinada em nome individual com vinte títulos e em muitos deles a tocar outros instrumentos (bandolim, braguesa, guitarra acústica, sintetizadores, guitarra sintetizada… e até a atrever-se a cantar em alguns dos seus primeiros álbuns a solo), Júlio Pereira – que em 2015 recebeu a comenda de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique – vem a Loulé honrar aquele que, sempre e para sempre, é o instrumento pelo que vai ser claramente (re)conhecido: o nosso cavaquinho.










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