Kel Assouf

Stage: Chafariz Map
28 June, 00:00

O que é que une a música tuaregue das Tartit e Les Filles De Illighadad, de Bombino e de Mdou Moctar, dos Tinariwen, Terakaft, Etran Finatawa (estes uma mistura de tuaregues e wodaabe, outro povo de nómadas do Deserto do Saara), Toumast, Tamikrest, Tidawt, Group Inerane ou Imarhan ao norte-americano stoner rock (por vezes também conhecido, e que feliz coincidência é!, como desert rock) de bandas como os Kyuss, Sleep, Monster Magnet, Fu Manchu, Queens of The Stone Age, Masters of Reality ou Nebula – estes, por sua vez, influenciados pelos Led Zeppelin, Cream, Black Sabbath, Jimi Hendriz ou ZZ Top – e até à synth-pop de uns Devo, Human League, Cabaret Voltaire, Yellow Magic Orchestra, Orchestral Manoeuvres in the Dark, Gary Numan, Dead or Alive ou Ultravox – estes, pelo seu lado, devedores directos de Kraftwerk, Brian Eno, Vangelis, Tangerine Dream, Can ou Faust?
A pergunta tem, de facto uma (e só uma), resposta possível: a banda Kel Assouf. A mesma que este ano se vai estrear no Med de Loulé depois de ter editado em Fevereiro deste ano um novo álbum, o terceiro da sua carreira e primeiro para a Glitterbeat (a editora-maravilha inventada pelo ex-The Walkabouts… e também ex-residente em Lisboa durante bastante tempo Chris Eckman), de seu nome “Black Tenere” que está a deixar os críticos e jornalistas de música de toda a Europa de queixo caído… e com inteira razão. Liderados pelo cantor, músico - ao volante de uma belíssima guitarra eléctrica Gibson Flying V (há fotos lendárias de Jimi Hendrix, Keith Richards, Ray Davies, Neil Young ou até a lenda dos blues Albert King com guitarras iguais em riste) - e compositor Aboubakar “Anana” Harouna, nascido nos arredores de Agadèz, capital do Níger, e desde 2006 radicado em Bruxelas, onde formou os Kel Assouf. Uma banda que é neste momento um “power-trio” composto por ele, pelo tunisino – que também pertence aos Bargou 08 - Sofyann Ben Youssef nas teclas (órgão e sintetizador Moog SUB 37), e pelo belga Olivier Penu na bateria. Durante alguns anos, o grupo também integrou a cantora, compositora e actriz Toulou Kiki, que participou no filme de culto “Timbuktu”, do realizador mauritano Abderrahmane Sissako, ou, quando esta não podia, Mahassa Wallet Amoumine, das Tartit.
Com a adolescência passada nos campos líbios onde as tropas de Khadafi ensinavam a arte da guerrilha a jovens tuaregues – durante a primeira revolta deste povo contra os governos do Mali e do Níger, no início dos anos 90 -, também Anana tinha uma kalashnikov numa mão e uma guitarra na outra, tal como contam os Tinariwen, a principal banda de “rock do deserto” (neste caso o Saara) desde sempre, à qual também ele, Anana, pertenceu. Mas foi já na Bélgica que encontrou os músicos que perceberam o que ele queria fazer da sua… música, depois de ter sido guia turístico no Níger e enquanto estudava para organizador e coordenador de instituições culturais. Fundador do festival Nomad's Land na Bélgica e do Jam For Peace no seu país-natal (a questão que opõe os tuaregues aos governos centrais malianos e nigerinos está muito longe de estar resolvida, principalmente desde que vários grupos radicais islâmicos se envolveram no conflito), Anana Harouna editou com os Kel Assouf – nome que em tamaxeque significa tanto ”nostalgia” como “filho do destino” - os álbuns “Tin Hinane” (2010; Igloo Records), “Tikounen” (Igloo Records/Sowarex; 2016) e “Black Tenere” (Glitterbeat; 2019).
Três discos repletos de canções cuja música reflecte aquilo que já ficou dito lá atrás e cujas palavras – as palavras de Anana – falam de exílio, migrações e lutas (várias) mas também do valor do amor, da amizade e das viagens entre culturas diferentes, como de diferentes culturas é também feita a sua música tão especial.









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