Marcelo D2

Stage: Matriz Map
28 June, 00:30

“No princípio era o Verbo”.
É assim que começa o Evangelho de São João. O Verbo. A Palavra. O Discurso. A Mensagem. A Fala. O Testemunho. A Informação. A Promessa. A Obrigação. O Ensinamento.
De tudo isto é feita a arte de todas as pessoas que usam a música para contar histórias, colectivas… mas filtradas pelos neurónios, as veias cavas e a alma dos seus autores. Os trovadores e os menestréis. Os cantores e cantoras dos romances da nossa ruralidade, desde sempre e até agora (não é, Tiago Pereira?). Os griots da África Ocidental e os seus descendentes norte-americanos que criaram os blues ou os jamaicanos que inventaram o mento, que por sua vez deu origem ao reggae. Os ceguinhos que andavam por Lisboa, tocavam sanfona e vendiam folhetos com versos e histórias de crimes e feitos guerreiros e acontecimentos extraordinários. “Le Chant des Partisans” e “Bella Ciao”. Woody Guthrie com a sua máquina que matava fascistas e José Afonso contra os vampiros todos. Chico Buarque e Violeta Parra. Miriam Makeba e Cun Jian. Bob Marley e Victor Jara. John Lennon e The Clash. Gil Scott-Heron e Manu Chao...
E… O Hip-Hop! Não todo, não sempre, mas o melhor, o melhor mesmo, desde o seu início nos anos 70 em bairros negros de Nova Iorque – e seja nos Estados Unidos, em Portugal, no Brasil, no mundo – sempre foi e é o rap que mais protesta, que exige, que intervém, que revoluciona. E, do Brasil, chega-nos desta vez ao Med de Loulé mais um rapper para quem a cantiga é de facto uma arma.
A palavra esteve sempre no centro da arte de Marcelo D2. A palavra que é protesto, intervenção, revolta, agitação, consciencialização. Não por acaso foi ele que, por acidente, criou uma tendência crescente no Brasil, o rap acústico - que o próprio detesta, comparando os seus praticantes aos sertanejos universitários –, ao ser o primeiro rapper brasileiro a gravar um unplugged da MTV e de enorme sucesso em 2004. Tal não era preciso, mas foi aí -com a força e verdade das suas palavras aliada a uma formação musical diferente e difusão nacional para milhões de pessoas – que mais gente percebeu que Marcelo era mais que mero MC de Hip-Hop, sendo então aceite como um enorme cantautor e poeta urbano.
Em Loulé ele vem apresentar essencialmente as canções do álbum “AMAR é para os FORTES”, de finais do ano passado, já assombrado pela nova realidade brasileira (a ascensão de Bolsonaro e dos seus ao poder) e onde, à sua voz, se juntaram a de alguns dos mais importantes cantores brasileiros como Alice Caymmi (neta do enorme Dorival), Gilberto Gil, Kassin, Rincon Sapiência, Rodrigo Amarante ou até Seu Jorge (que em tempos foi seu colega, como percussionista, nos Planet Hemp). Um álbum – o sétimo da sua carreira a solo - que deu origem, pela primeira vez, uma média metragem que faz eco visual da sua música. E um disco em que o seu, digamos assim para simplificar, afro-samba-rap chega a um zénite absoluto em termos musicais e de acutilância dos versos. E um dos melhores exemplos disto que acabamos de escrever é o tema “Resistência Cultural”, em que o título se explica a si próprio e em que Marcelo D2 repega num tema seu de 2017 e o grava agora com a ajuda da concertina – que no Brasil se diz sanfona (não confundir com o instrumento homónimo medieval) – de sabor a Nordeste tocada por Marcelo Janeci e a voz de Gilberto Gil (um dos fundadores do Tropicalismo e ex-Ministro da Cultura de um outro Brasil).
Nascido com o nome de Marcelo Maldonado Peixoto, no Rio de Janeiro, a 5 de Novembro de 1967, Marcelo D2 sempre experimentou a fusão de sonoridades e estilos na sua música, quer a solo quer com a mítica banda carioca que fundou, os Planet Hemp - criada em 1993 e à qual também pertenceram o co-fundador Skunk, o já referido Seu Jorge e B Negão, que há dois anos deu um espectáculo inesquecível no nosso festival). Rap, funk, rock, reggae, soul, samba, bossa-nova, axé, forró, coco (oiça-se o seu disco de homenagem a Bezerra da Silva), etc & mais etc… Essa liberdade estética, cultural e moral, de saltar de estilo em estilo ou de juntar vários numa mesma canção, tornou-o um dos mais respeitados rappers do Brasil e, também, no espaço da Lusofonia: o seu dueto com o português Sam The Kid, gravado há cerca de dez anos, do clássico “Desabafo/Deixa Eu Dizer”, de Ivan Lins, está na história da música dos dois países.
Com a memória de todas as suas canções que ficaram lá atrás – contidas nos álbuns “Eu Tiro é Onda” (1998), “A Procura da Batida Perfeita” (2003), “Meu Samba é Assim” (2006), “A Arte do Barulho” (2008), “Marcelo D2 Canta Bezerra da Silva” (2010) e “Nada Pode Me Parar” (2013) – e com “AMAR é para os FORTES“ para apresentar, fresquinhos, Marcelo chega em 2019 ao Med de Loulé no auge da sua carreira e do domínio, perfeito, da Palavra.









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