Moonlight Benjamin

Stage: Chafariz Map
27 June, 22:00

A espantosa cantora haitiana Moonlight Benjamin é também sacerdotiza de vodu, uma religião afro-americana nascida na África Ocidental pelos iorubás, que são ainda hoje cerca de 30 milhões de pessoas, sendo, por exemplo o segundo maior grupo étnico da Nigéria. Não é por isso de estranhar que Fela Kuti tenha usado a língua iorubá em algumas das suas canções (apesar de a língua inglesa ser largamente predominante) ou, já que estamos a falar do rei do afrobeat, um dos seus príncipes, o baterista Tony Allen tenha em 2014 fundado um novo grupo de nome Afro-Haitian Experimental Orchestra, em que toca ao lado ao lado de percussionistas e cantores de comunidades vodu em Port-au-Prince. Mais uma informação acerca de Moonlight Benjamin: a sua música tem também muitas influências de blues e rock’n’roll. Estranho? Não, nem nada que se pareça!
Contando um pouco de História: a antiquíssima religião do povo iorubá – com tudo o que uma religião contém de cultura, prática e misticismo próprias de quem a pratica – viajou, forçadamente, de África para as Américas (para os campos de algodão do Mississippi e para o Brasil, para Cuba e o Peru, para o Haiti, a Jamaica, as Guianas, o México…) e aí se misturou, confundiu e floresceu de novo misturada com outras religiões e culturas – a dos europeus cristãos colonizadores (Portugal, Espanha, Inglaterra, França, Holanda…), a de muitos – e outros tantos – africanos não iorubá e a dos originais índios (ou, depois, já mulatos e caboclos) das Américas do Sul, Central e do Norte.
Deu, por isso, origem a um sem-número de novas religiões ligeiramente diferentes mas todas irmanadas nessa afro-raiz em que os seus deuses (os orixás) são celebrados: o candomblé e o umbanda, a santeria e a brujeria, o candombe de Cuba (cuja música foi tão bem representada no nosso festival, há dois anos, por La Dame Blanche) ou os vários vodus do Haiti ou de Nova Orleães.
E foi em Nova Orleães e nos férteis campos de algodão que ladeiam o Rio Mississippi que os blues – que estaria na origem directa do rock (leia-se o que acerca desta temática se escreve no texto sobre os Tshegue) – foram criados, sobre as bases séculos antes lançadas pelos griots (também eles da África Ocidental). Não por acaso, os blues – como depois o rock’n’roll – foram considerados “a música do Diabo” enquanto os salmos, os cânticos, os espirituais negros, o gospel era a música de Deus. O genial Robert Johnson, primeiro grande nome dos blues, morreu com 27 anos e deve ter ido direitinho para o Inferno: conta lenda que vendeu a alma ao Diabo numa encruzilhada para ser o melhor guitarrista do mundo (uma das suas canções chama-se mesmo “Me and the Devil Blues”). Mas, paradoxalmente, muita gente das igrejas cristãs – principalmente as evangélicas e pentecostais – também cantaram e tocaram blues.
Todos os que têm o seu nome precedido por Rev. (pois, significa Reverendo) – o maior de todos foi Gary Davis (também conhecido como Blind Gary Davis por ser cego, à semelhança de outros grandes nomes dos blues como Blind Lemon Jefferson, Blind Willie McTell, Blind Boy Fuller ou Sonny Terry), mas houve também Archie Fair (que ensinou BB King a tocar guitarra), Edward W. Clayborn, Clay Evans, a incomparável Sister Rosetta Tharpe e todos aqueles que gravaram a música de Deus e a música do Diabo: o já referido B.B. King, Denise LaSalle, Charley Patton, Son House, Muddy Waters, Bukka White, Memphis Minnie, Mississippi Fred McDowell, Lonnie Pitchford, Otha Turner e Leo “Bud” Welch são alguns dos artistas de blues do Mississippi que também gravaram discos com gospel e espirituais negros. T-Bone Walker explicava tudo numa frase: “Os blues são o gospel virado do avesso”.
De volta à protagonista deste texto: a música de Moonlight Benjamin e dos músicos franceses que a acompanham contam na perfeição estas histórias da ligação, via vodu (e a sua música) entre África e as Américas. Com dois álbuns – “Mouvman” ?(2011) e “Siltane” (2017) – e um EP – “Memwan Defalke” ?(2015) – editados, ela própria ou a sua música têm sido caracterizadas como “a nova sacerdotisa do vodu rock”, “guitarras-metralhadoras e febre caribenha”, "diamante-do-hard-vodu-blues-rock", “a mãe da soul blues & rainha do vodu punk rock”, “transe vodu num novo e explosivo estilo”, “vodu haitiano inspirado pelos Black Keys, White Stripes e Dr John”, “Patti Smith caribenha” ou, como refere o site da Womex, “blues vodu, rock haitiano e rol crioulo”.
Moonlight Benjamin estudou jazz em Paris; regressou ao Haiti para estudar e se iniciar no vodu; cantou com o pianista cubano Omar Sosa e com o saxofonista Jacques Schwarz-Bart, de Guadalupe, no seu projecto conjunto Creole Spirits. Agora, ao lado do produtor e músico Matthis Pascaud (dos Square One), cantando palavras baseadas em textos de vozes dissidentes da literatura haitiana como Frankétienne, Georges Castera e Anthony Lespès, a sua música está ainda mais densa, intensa, madura e coerente. Em pré-transe a esperamos (ansiosamente).









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