OMIRI

Stage: Chafariz Map
29 June, 00:00

O que é que une os nomes de Brian Eno & David Byrne, Stewart Copeland (ex-baterista dos Police), 1 Giant Leap, Dissidenten, Roberto Musci, Banda do Casaco, Sétima Legião, Megafone, Sampladélicos, Charanga, O Experimentar Nã M’Incomoda ou Omiri? Todos eles já editaram discos com música feita sobre recolhas musicais/sonoras recolhidas junto do “povo que canta” ou, mais radicalmente ainda, sobre sons captados na natureza. Recolhidos pelos próprios ou por outros, todos estes músicos têm uma coisa em comum: o amor pelos sons e músicas originais, vindas de um saber antigo e uma memória (colectiva) que é necessário preservar. Celebremos aqui alguns dos mais emblemáticos recolectores – para sempre abençoados sejam! - que foram às fontes beber desses ensinamentos e “congelá-los”, em disco ou em fita magnética, para nosso uso actual.
Graças ao fonógrafo de Edison (e de outros, numa longa história que não vem aqui ao caso), desde o final do século XIX podemos ter acesso a gravações sonoras vindas de épocas e de locais muito diferentes daqueles em que vivemos. E, graças a essa invenção técnica, muitos etnomusicólogos deixaram de tomar notas e desenhar pautas em cadernos e avançaram determinados para o terreno, gravando a música que existia à sua volta. Uma das pioneiras desta busca foi Frances Densmore, que consagrou boa parte da sua vida ao registo da música dos índios norte-americanos, um gosto e uma missão que lhe veio do seu contacto com os índios Sioux durante a infância. Numa altura — o início do século XX — em que os índios eram, se já não massacrados, utilizados como atracções de circo e vítimas de uma aculturação forçada, Frances Densmore ajudou a preservar muita da sua cultura original.
O musicólogo e etnólogo norte-americano Alan Lomax foi também um dos mais importantes recolectores de música tradicional do século XX, tendo feito trabalho no terreno principalmente nos Estados Unidos, Ilhas Britânicas, Itália, Espanha e Caraíbas. Filho de John Lomax — que foi pioneiro na recolha de canções tradicionais norte-americanas e o autor do livro “Cowboy Songs and Frontier Ballads” —, Alan seguiu os passos do pai e gravou milhares de temas musicais e entrevistas com músicos (Jelly Roll Morton, Leadbelly, Woody Guthrie...), tendo começado essa actividade com o registo de cantos de trabalhadores negros dos campos de algodão e de prisioneiros no Texas, Louisiana e Mississippi. Alan era também cantor, músico e foi o autor de uma teoria de análise musical aplicada à música tradicional, «cantometrics», que desenvolveu a partir de 1959 em conjunto com o departamento de Antropologia da Universidade de Columbia.
Contendo temas gravados nos anos 20 e no início dos anos 30 do século XX, e originalmente editada em seis LPs em 1952, a «Anthology of American Folk Music» - reeditada em 1997 numa caixa de três CDs duplos, através da Smithsonian Folkways Recordings — é um tesouro em que se encontram mais de oito dezenas de canções folk, country e blues, memórias «vivas» da história da música norte-americana e de nomes incontornáveis que esta colectânea deu a conhecer a um vasto auditório: The Carter Family, Leadbelly, Dick Justice, Mississippi John Hurt, Alabama Sacred Harp Singers, Clarence Ashley, The Memphis Jug Band, Blind Lemon Jefferson ou Robert Johnson, entre muitíssimos outros. A colectânea foi organizada pelo lendário etnomusicólogo, arquivista, realizador de cinema e pintor Harry Smith.
Pensa-se: todos eles são estrangeiros (e ianques!). E então a nossa música, a portuguesa? Ah pois, passando por cima do histórico e primevo “Cancioneiro Geral” de Garcia de Resende, sobre os pioneiros livros de César das Neves e Gualdino de Campos ou até o importantíssimo livro do diplomata inglês Rodney Gallop com “Cantares do Povo Português”, editado nos anos 30 do Séc. XX, a verdade é que muita gente fez recolhas preciosíssimas de música tradicional portuguesa… gravada: Leite de Vasconcelos, Ernesto Veiga de Oliveira, Benjamim Pereira, Margot e Jorge Dias – e, na actualidade, Tiago Pereira e Vasco Ribeiro Casais (eles que, coincidentemente, criaram em conjunto os Omiri… embora desde há alguns anos já só com Vasco ao leme), José Alberto Sardinha, Mário Correia -, entre muitos outros, mas com um outro nome a destacar-se acima de todos: o de Michel Giacometti.
Porque, às vezes, há estrangeiros que são mais portugueses do que muitos portugueses. E Michel Giacometti é disso um dos maiores e melhores exemplos. O etnomusicólogo corso (nascido em 1929, falecido em 1990) foi o responsável pela recolha de centenas de obras musicais portuguesas achadas nas aldeias de norte a sul do país, pela gravação de cantos, aboios, música de instrumentos em vias de desaparecimento, pela captação escrita e fotográfica de uma realidade e diversidade portuguesa riquíssima. Andarilho do mundo (Córsega, África, Suécia, Paris...), Giacometti fixou-se em Portugal em finais dos anos 50. E, entre muitas outras cosias, deixou-nos tudo aquilo que se pode ouvir na caixa de CDs «Antologia da Música Regional Portuguesa» (em conjunto com Fernando Lopes-Graça), também conhecida originalmente, aquando da sua edição em vinil, como os «Discos da Serapilheira», e ver na histórica série televisiva «Povo Que Canta».
Filhos desse mesmo espírito, fervor e paixão, Vasco Ribeiro Casais – também músico, compositor e produtor conhecido pelo seu trabalho nos Dazkarieh, Seiva e Sopro – e Tiago Pereira – o mesmo que esteve o ano passado no Med, ao lado de Sílvio Rosado, nos Sampladélicos, realizador e documentarista (para além de organizador do acervo do “Povo que Ainda Canta” e d’A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria – editaram em 2010 o seu álbum de estreia, “Dentro da Matriz”, que tinha como convidada especial uma amiga de sempre: Né Ladeiras (a quem Vasco produziu o disco “Da Minha Voz”, em 2001). Nesse álbum de estreia – e respectivo espectáculo – as recolhas de canções tradicionais e imagens eram de Tiago Pereira, com Vasco Ribeiro Casais a tocar instrumentos “reais”, e muitas vezes improvisando, por cima – instrumentos que, ao longo desta década de existência, têm sido gaitas-de-foles, nyckelharpa, flautas, cavaquinho, bouzouki e viola braguesa -, cruzando malhões, chulas, corridinhos com drum’n’bass, electro, house, dub, trance....
Já sem Tiago presente fisicamente no projecto mas usando ainda as suas recolhas sonoras e visuais, com uma sonoridade sempre coerente neste propósito de reinventar uma cultura tradicional e a transportar para os dias de hoje, Vasco editaria em 2017 o segundo álbum de Omiri, “Baile Electrónico”, onde tem outras duas convidadas muito especiais: Capicua e Celina da Piedade. Um disco do qual disse Luís Rei, e como sempre com acerto: “’Baile Electrónico’ tem aqui verdadeiros momentos de génio de um multi-instrumentista, arranjador, produtor de rara sensibilidade na forma de construir temas de três / quatro minutos que saltitam constantemente entre ritmos, géneros musicais e recolhas sonoras”.
Neste momento, Vasco Ribeiro Casais está a editar um novo álbum, desta vez já com tudo feito por ele: gravação de recolhas de imagem e de cantares tradicionais, artes e ofícios, para além do trabalho de manipulação e reconstrução musical posterior, inspirado pela música alentejana. O álbum chama-se “Alentejo Vol. I: Évora”, encontra-se já disponível em todas as plataformas digitais (a edição física está marcada para Julho) e no nosso Festival vamos ser alguns dos primeiros privilegiados a ouvi-lo!










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