Selma Uamusse

Stage: Chafariz Map
28 June, 20:00

Em 2016, o Festival Med de Loulé fez uma coisa que nunca tinha feito antes: uma artista ainda sem disco editado em seu nome protagonizou um dos concertos de um dos seus três palcos principais. Essa artista foi, e é, Selma Uamusse. E o concerto foi inesquecível para todos os que nele participaram: Selma, os seus músicos, a sua equipa e a imensa multidão que extravasou o recinto do Palco Castelo e que, do primeiro ao último segundo, comungou com ela e com eles do espírito que do palco se escapava para a plateia (muitas vezes dançante, de outras absolutamente extasiada). A mesma Selma Uamusse que, este ano, volta ao nosso festival.
Nos anos que se seguiram, Selma estabeleceu o seu nome – como diria Malcolm McLaren, manager dos Sex Pistols - como um dos maiores da música criada em Portugal e Moçambique. Participou em espectáculos de homenagem às míticas Doce, fez parte do júri na última edição do Festival RTP da Canção, foi a organizadora – em tempo record! – de um imenso espectáculo de solidariedade com as vítimas moçambicanas do ciclone Idai e… lançou em 2018 o seu álbum de estreia a solo, o espantoso “Mati” (palavra que significa “água” em changana, a língua mais falada na capital de Moçambique, Maputo). O álbum, produzido pelo holandês Jori Collignon, dos Skip&Die (que estiveram no Med em 2015), foi gravado entre Portugal e Moçambique e é cantado em inglês, português e línguas moçambicanas. E, para o próximo ano – 2020 – já está prometido um novo álbum, já gravado e produzido igualmente por Jori Collignon ao lado do brasileiro Guilherme Kastrup (produtor de Elza Soares ou Zeca Baleiro).
Para trás ficou uma carreira começada muito cedo, por volta de meados da primeira década deste século, quando quem a via nos espectáculos dos conimbricenses Wraygunn – liderados por Paulo Furtado – perguntava quem seria aquela miúda negra, ainda adolescente, que dava luta nos coros à já veterana da cena coimbrã Raquel Ralha. Uma, a Raquel, tinha e tem uma belíssima voz moldada pelo rockabilly e pela música country, enquanto a luso-moçambicana Selma Uamusse dava o lado mais soul, mais blues, mais gospel, mais afro e mais selvagem ao som desta banda já de si construída sobre uma base em que esses e outros géneros se combinavam com o scratch vindo do hip-hop e o psicadelismo, o garage, o noise e o rock mais desbragado que se pode imaginar. A pouco e pouco, essa miúda foi crescendo e a sua voz – potente mas aveludada, límpida mas com arestas inesperadas – começou a aparecer em muitos outros grupos que não apenas essa seminal banda de origem, com o qual ela gravou o álbum “L'Art Brut” (2012).
Com outras bandas e artistas, fez coros, duetos ou participações especiais em discos dos Xutos & Pontapés -- “O Circo De Feras Ao Vivo No Campo Pequeno” (2008) e “Xutos & Pontapés” (2009) –, Sean Riley & The Slowriders – “Only Time Will Tell” (2009) – e Rita Redshoes -- “Lights & Darks” (2010). Nesse mesmo ano integrou o projecto Movimento (que apresentava versões modernas de canções clássicas portuguesas dos anos 60 e 70) ao lado de Miguel Ângelo, Marta Ren e Gomo, tendo gravado com eles o álbum homónimo, editado um ano depois. Em 2012, Selma colabora em discos dos Corsage, “Música Bipolar Portuguesa”, e da banda reggae Chapa Dux, “Be Strong”, para no ano seguinte aparecer na gravação de um dos lendários espectáculos natalícios do seu camarada wraygunniano Legendary Tigerman na ZDB, “Fuck Christmas, I've Got The Blues - Live at ZDB”. E nos anos que se seguiram cantou em “Nociceptor”, de Thunder & Co., e – em disco e/ou vivo - Samuel Úria, Cacique'97 ou Rodrigo Leão. Criou o Selma Uamusse Nu-Jazz Ensemble, também fez espectáculos de homenagem a Miriam Makeba ou Nina Simone, esteve envolvida em projectos como a arrepiante peça de teatro “Ruínas” ou o filme de Bruno de Almeida sobre o lendário Cabaret Maxime.
Em 2014 iniciou a sua própria carreira a solo, criando um reportório baseado nas músicas tradicionais moçambicanas que, sabe-se agora, faz justiça aos grandes nomes da música do seu país: de Venancio Mbande e dos outros grandes timbileiros da Zavala aos batuques da Gorongosa e aos conjuntos anónimos de marrabenta, passando pela releitura mais ou menos moderna desses e de outros géneros moçambicanos protagonizados pela Orquestra Marrabenta Star, Conjunto Kwekweti, Dilon Djindi, Roberto Isaías, José Mukavele, Kapa Dech, Timbila Muzimba, Ghorwane, Neco Novellas ou Costa Neto. E, depois de vários meses de experiências, atreveu-se a levar para palco a sua ideia muito particular de música moçambicana onde a sua raiz, a sua essência e matriz, se fundia e funde – vê-lo-emos de novo esta noite em Loulé – com o gospel, a soul, electrónicas, abordagens rock que remetem por vezes para PJ Harvey, spoken word, afrobeat, reggae arraçado de outras Jamaicas e de outras Áfricas, aproximações a Rokia Traoré ou a baladas que de tão depuradas e ancestrais que são nos remetem para um fado antigo, global e cósmico.









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