The Turbans

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27 June, 01:30

O que é que uma célebre artista brasileira, mas nascida na portuguesíssima terra portuguesa de Marco de Canaveses, de seu nome Carmen Miranda, fez quando nos anos 40 do Séc. XX chegou, triunfal, a Hollywood? Lançou uma moda que depois se espalhou por todo o mundo ocidental e se tornou, como se diz agora, viral: a moda do turbante. Os turbantes dela – muitas vezes enfeitados com bananas, ananases e até papagaios - tornaram-se lendários, estão expostos em museus de Nova Iorque e Rio de Janeiro e, embora mais discretos, foram também adoptados por outras actrizes como Marlene Dietrich, Greta Garbo, Carole Lombard, Elizabeth Taylor, Sophia Loren, Lana Turner, etc, etc… E em que foram inspirados os turbantes de Carmen Miranda? Naqueles usados, os ojás, pelas mães-de-santo do candomblé – religião afro-brasileira que tem traços comuns com outras religiões de raiz africana nas américas (vodu, santeria, brujeria…) de São Salvador da Bahia. Mas o turbante – agora tantas vezes estigmatizado – é também comum a homens e mulheres de várias zonas de África, da Ásia e da Europa, sendo, citando a Wikipedia, também de “uso muito comum na Índia, no Bangladesh, no Paquistão, no Afeganistão, no Oriente Médio, no Norte da África, no Leste da África (principalmente no Quénia), no Sul da Ásia e em algumas regiões da Jamaica”.
O turbante é, por isso, um símbolo universal e não é de estranhar que tenha sido adoptado por um grupo musical composto por elementos com origens tão diversas – Bulgária, Israel, Irão, Grécia, Turquia, Itália, Bielorrússia, Espanha, Reino Unido… - como é este… The Turbans. Com a semente do projecto a ser lançada há cerca de dez anos, na Índia – onde o guitarrista Oshan Mahony conheceu o violinista Darius Luke Thompson -, os dez “turbantes” percorreram um longo caminho ao vivo antes de editarem o seu álbum de estreia, homónimo, em 2018. Praticantes de uma música que vai pedir inspiração à música cigana dos Balcãs, ao klezmer dos judeus, à música sufi da Turquia e do Irão, ao flamenco da Andaluzia, ao gnawa e ao chaabi de Marrocos, às ragas da Índia e a muitos outros géneros, dir-se-ia ecuménicos, do mundo, The Turbans são – à semelhança do The Silk Road Ensemble, inventado por Yo-Yo Ma, ou do projecto Playing for Change – um exemplo maior de como o amor à tradição, neste caso a muitas tradições, se pode unir de forma livre mas intensa à modernidade absoluta.
No seguimento do sucesso que foram os seus concertos, o álbum “The Turbans”, editado pela prestigiada Six Degrees Records, foi elogiado pela imprensa inglesa (e não só) e é um manifesto político importante nos dias de hoje. Dias de raiva e de ódio, de racismo e de xenofobia, de ignorância e contra-informação. E, também por isso, a música, as canções, a mensagem de The Turbans são limpidamente e brilhantemente claras. Gravado na casa dos pais de Oshan Mahony, perto da fronteira entre Inglaterra e a Escócia, e misturado por Jerry Boys (produtor que trabalhou com grandes nomes do rock como The Beatles e Rolling Stones mas também com Ali Farka Touré, Buena Vista Social Club ou Kronos Quartet).
De coração, e mente!, aberta a música desta banda “de todo o lado” tem também lugar para várias colaborações – como o Coro de Vozes Búlgaras (ah, esse mistério!) de Londres, músicos marroquinos… – e para fazer a sua música, já de si contagiosa e dançável, ainda mais apontada às pistas com o single “Aman”, remisturado por Gaudi.









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