TSHEGUE

Stage: Cerca Map
29 June, 01:30

Intro: Há dois anos, um amigo nosso cruzou-se com um homem negro, que não conhecia pessoalmente à saída, de um concerto e perguntou-lhe: “Tu és o Marcus Veiga, não és?”. O outro, por sua vez, respondeu com outra pergunta: “Sou. Como é que sabes?”. E disse-lhe o nosso amigo: “Um preto usar uma T-shirt dos Exploited não é muito habitual. Só podias ser tu”. Marcus – o mentor do projecto Scúru Fitchádu que junta funaná com punk e electrónicas - riu-se e começaram os dois a falar sobre o mesmo assunto com que começamos este texto:
Porque é que há tão poucos – apesar de todos os que arrolaremos depois serem ou terem sido tão importantes – artistas negros no rock, no punk, no garage, no metal, etc, etc? O rock’n’roll é – como se sabe – absolutamente subsidiário dos negros blues. E tanto assim é que há, resumindo, estas teorias principais para o seu nascimento:
Teoria 1: Nasce no tema blues – de forte pendor sexual – “My Man Rocks Me With One Steady Roll”, de Trixie Smith, em 1922! Teoria 2: Nasce com a canção “Good Rocking Tonight”, de Ray Brown, em 1947. Teoria 3: Nasce em 1950 com o blues electrificado de Muddy Waters e o seu tema “Rollin'Stone” (e que viria a inspirar o nome imagine-se de quem…). Teoria 4: Nasce com “Rocket 88”, de Ike Turner (futuro marido de Tina Turner), mas cantado por Kackie Brenston, em 1951, editado pela Chess Records (editora de blues), mas gravado por Sam Phillips (o dinheiro dessa gravação permitir-lhe-ia fundar a lendária Sun Records… onde pôs cantores brancos como Elvis Presley ou Johnny Cash a gravar singles com country de um lado e blues do outro). Teoria 5: O rock'n'roll começa – lá está - com a edição do tema “That's All Right”, de Elvis Presley, a 19 de Julho de 1954, através da Sun Records.
Mas, depois disso, são demasiado raros – olhando para o panorama global – os negros e negras a fazer rock ou todos os seus (milhares de) derivados. Sim, há Chuck Berry, Little Richard (em cuja banda começou a tocar guitarra Jimi Hendrix, ele outro mito maior do rock), Bo Diddley, The Isley Brothers, Tina Turner, Prince, Poly Styrene (X-Ray Spex), Phil Lynott (Thin Lizzy), Bad Brains, Living Colour, Lenny Kravitz, Fishbone, Derrick Green (Sepultura), Tunde Adebimpe (TV on the Radio), Skunk Anansie, Kele Okereke (Bloc Party), The Very Best ou Death Grips, para além do funk-rock dos Parliament/Funkadelic, do jazz-rock de Miles Davis e Herbie Hancock, do tudo-rock de Stevie Wonder… E chega de exemplos anglo-saxónicos. O ano passado, neste mesmo site, referimos – a propósito dos magníficos Throes + The Shine as largas dezenas de bandas angolanas que fazem rock, punk ou heavy-metal.
E este ano damos a conhecer mais um nome fabuloso que faz da sua música um lugar de convívio entre géneros bem diversos: a grande música congolesa – a madiaba, o mutuashi, os soukous, a sua variante da rumba… em que também navegaram (ou ainda navegam) Franco e os Zaiko Langa Langa, Papa Wemba e Kanda Bongo Man, Kasai Allstars, Konono Nº1 e Staff Benda Bilili – misturada com os roques dos Tshegue, um duo com base em Paris que reúne a cantora Faty Sy Savanet, nascida em Kinshasa (República Democrática do Congo), com o produtor, baterista e percussionista franco-cubano Nicolas 'Dakou' Dacunha (que já tocou com gente bem nossa conhecida como Raul Paz, Mayra Andrade, Amel Bent ou Yael Naim. Juntos, criam um estilo só deles – apesar de poder ser “encaixado” no vastíssimo mundo do afropunk - em que entram músicas tradicionais e modernas do Congo somadas ao garage rock, a música vodu do Haiti, a soca antilhesa, afro-house e tudo o mais que possa fazer sentido. Em 2017 editaram o EP “Survivor” e há poucos dias saiu um novo EP, “Telema”.
A palavra “tshegue” significa, em lingala (a língua preferencial de escrita das letras de Faty Sy Savanet), “menino da rua” e era a alcunha que a tia lhe dava por ser maria-rapaz. E, também DJ, Faty actua regularmente na discoteca L'Embuscade, em Paris, onde põe a rodar discos em que se podem ouvir blues, soul, grime, hip-hop, kuduro, Gqom (a música electrónica de dança nascida em Durban, África do Sul, que junta rap, house e o local kwaito), tecno, música congolesa do presente ou do passado; o que também ajuda a explicar a abertura de vistas destes dois grandes músicos que pela primeira vez – e para nosso enorme gozo – nos visitam.









Organization

Media Partners