47 SOUL

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30 Junho, 23:30

Há poucos meses, num artigo para a revista BLITZ, Rui Miguel Abreu escreveu um excelente artigo sobre a chamada música de intervenção – ou de protesto, de luta, de resistência… - em que lembrava grandes marcos e grandes autores dessa corrente musical que existe subjacente a todas as sociedades e culturas, todos os lugares épocas históricas. E nesse texto referiam-se de imediato o simbólico “Strange Fruit” de Billie Holiday – a “Fight The Power”, dos Public Enemy, passando pela folk interventiva de Woody Guthrie e Pete Seeger (pais ideológicos e estéticos de Bob Dylan), sem esquecer a música de intervenção feita ao longo da História em muitos outros lugares que não os Estados Unidos da América: os ingleses The Clash, o jamaicano Bob Marley ou os portugueses José Afonso e José Mário Branco (ou os mais recentes General D, Chullage e Valete). Tal como nesse artigo também seria aqui fastidioso enumerar uma lista mais alargada de canções e de cantores/bandas de protesto, mas vale a pena referir apenas mais alguns como Violeta Parra e Léo Ferré, Chico Buarque e Miriam Makeba, Bonga e Cui Jian, John Lennon e o GAC – Vozes na Luta, os Yothu Yindi e Fela Kuti, o “Bella Ciao” e o “El Pueblo Unido”, “A Internacional” e a “Maria da Fonte”, o “There’s a Riot Goin’On“ e o Sunday Bloody Sunday”, o “This Land is Your Land” e o “Kiling in The Name”.
Em todo o mundo, mas principalmente em países onde há guerra, totalitarismo, repressão, miséria, racismo, desrespeito pelas minorias, pela liberdade (religiosa, política, cultural, linguística, identitária…) ou pela natureza, a canção de protesto tem, como sempre teve, uma função social importantíssima de alerta, de educação, de informação, de acção, de guia… E num país, que na prática ainda não o é e que nas últimas semanas voltou a ser notícia em todo o mundo pelas piores razões, como a Palestina a canção de protesto é cada vez mais uma arma importante na difusão (interna e externa) dos anseios de todo um povo que quer, há muitas décadas, transformar-se por direito próprio numa nação. E uma nação que viva em paz e não tema os ataques regulares – e absolutamente desproporcionais em termos de força e poder de destruição militar – do seu vizinho Israel.
E, mais uma vez, também não é este o lugar para se esmiuçarem os pormenores do conflito israelo-palestiniano, que muita gente confunde com um conflito (maior e, apesar disso, mais simplista) entre judeus e muçulmanos. Mas, como estamos num festival de música, convém recordar que neste conflito que continua a ter como principal epicentro a Faixa de Gaza intervém muita gente do mundo da música e, todos eles!, irmanados na mesma vontade de paz, de concórdia, de uma solução justa que conduza à existência, entre o Jordão e o Mediterrâneo, à existência de duas nações: judeus não israelitas (como The Klezmatics) ou israelitas-mesmo como os Balkan Beat Box (que tivemos o prazer de ter entre nós em 2015) ou o grupo rap Hadag Nahash, grupos mistos de israelitas e palestinianos como os Bustan Abraham (que significa «Jardim de Abraão», porque tanto os árabes como os judeus descendem de Abraão, respectivamente através de Ismael e Isaac, seus filhos), os Sheva ou os Olive Leaves, e até uma polémica – para os radicais dos dois lados - representação “conjunta” de duas cantoras, Mira Awad (palestiniana) e Noa (israelita) no Festival da Eurovisão em 2009.
Mas, do lado exclusivamente palestiniano (na Palestina ou na diáspora), há vários exemplos de como a realidade que os envolve directa ou indirectamente é presença constante na sua música e a paz, também por serem as principais vítimas desta guerra, poucas vezes é cantada. Com o seu hino “Biladi”, a colectânea “Palestine Lives!: Songs from the Struggle of the People of Palestine” (1974) e as canções dedicadas a este povo por Marcel Khalife (embora este seja libanês e não palestiniano) muitas vezes como bandeira política, cantores, cantoras e bandas como Amr Diab, Kamilya Jubran, Amal Murkus, Nabil Salameh, Rim Banna, Mohammed Assaf – vencedor do “Ídolos” dos países árabes e mundialmente famoso - ou os grupos de hip-hop DAM, R.F.M., Ramallah Underground e The Philistines têm sido os porta-vozes da luta palestiniana (e, simplificando, seja de uma forma mais radical como os rappers seja mais moderada como Amal Murkus).
E, na acualidade, com um fabuloso acrescento de peso: os 47 Soul, motivo maior deste texto de apresentação e uma notável banda que junta nas suas canções tatas vezes interventivas a língua inglesa e o árabe, o dabke – música para a dança-sapateado tradicional da zona do Bilad Al-Sham (Síria, Líbano, Palestina, Jordânia e parte da Turquia) e que tem, por exemplo, Omar Souleyman como um dos seus representantes mais populares no Ocidente – com géneros exteriores como o electro-pop e o R&B, o indie-rock e o rap, o reggae e o experimentalismo. Um quarteto (agora quinteto) em que todos os seus membros são de origem palestiniana, os 47 Soul nasceram em Amã, na Jordânia, em 2013, e editaram até agora os álbuns “Shamstep” (que significa literalmente “sapateado do Al-Sham”), em 2015, e o recentíssimo “Balfron Promise”. Usando sintetizadores analógicos, caixas-de-ritmos, guitarras eléctricas e percussões tradicionais (daff – o adufe -, darbuka e tambores), o grupo é formado por Z the People (Ramzy Suleiman), o rapper Tareq Abu Kwaik (El Far3i, que fez parte dos El Morabba3), Walaa Sbeit, El Jehaz e Rami Nakhle, que para além de instrumentistas são também cantores.
Música cerimonial – muito celebrada em casamentos, por exemplo -, nas suas mãos e nas suas vozes, o dabke nunca deixa de ser uma música infecciosamente dançável mas transforma-se também numa arma de propaganda e intervenção. Em Julho de 2016, os 47 Soul foram tocar na Cisjordânia (West Bank), aquele território que, tal como a Faixa de Gaza, formalmente não pertence nem a Israel nem à Palestina, e aí puderam actuar pela primeira vez para uma audiência quase exclusivamente palestiniana – o concerto mais memorável da sua carreira. E, entretanto, tendo já a cidade de Londres como base, tocaram em variadíssimos grandes festivais de world msuic e foram capa da revista Songlines. Em Loulé, cidade que foi árabe durante tantos séculos!, os 47 Soul irão também sentir-se em casa.









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