Anthony Joseph

Palco: Cerca Map
28 Junho, 23:30

Quando se ouve o tema “Neckbone”, de Anthony Joseph, pode ouvir-se como base subtil da canção – e no meio da sua voz, com assinatura, que canta sobre um incêndio criminoso na Jamaica mas tem nome de prato típico das Caraíbas (uma sopa de ossos) e de metais jazz-funk-afrobeat - um melodioso instrumento metálico, não no sentido de ter alguma coisa a ver com o heavy-metal mas porque é feito de metal, mesmo. E até se poderia pensar que este instrumento é o mesmo que é samplado em canções como “Telemóveis”, de Conan Osíris, “Toy”, de Netta, ou “Tokyo Drift”, dos Teriyaki Boyz. Isto é, um português, uma israelita e um bando de japoneses a usarem sons de uma orquestra de instrumentos… indonésios: o gamelão. Mas não: o que se ouve em “Neckbone” (e noutras canções de Anthony Joseph, principalmente nesse álbum de 2016 que inclui este tema, “Caribbean Roots”) é uma steelpan.
E o que é uma steelpan? A resposta mais rápida e óbvia é: Uma frigideira! Também é, mas esta não serve para fritar bifes ou ovos mas para tocar. Também conhecida como steel drum – o que não é propriamente correcto porque este instrumento não é um tambor, sendo antes um idiofone com características melódicas únicas -, a steelpan é uma fabulosa invenção dos músicos de Trindade (ou Trinidad e Tobago) nos anos 30 do Séc. XX, transformando bidões de gasolina num instrumento musical riquíssimo em notas, timbres e nuances. O topo do bidão é trabalhado de modo a que se obtenham as notas (actualmente usa-se uma escala de doze) que se desejam e existem steelpans que fazem a melodia principal e outras, mais graves, que fazem os baixos, para além de mais algumas variações. E ainda foram mais longe: juntando várias steelpans eles criaram orquestras (que chegam, por vezes, a reunir dezenas de músicos), as steelbands, capazes de interpretar temas tradicionais desse país de 23 ilhas (como o calipso, a soca, o limbo ou o chutney, este e tal como o nome indica uma mistura de influências caribenhas, antilhesas e indianas – os descendentes de indianos, refira-se, constituem 40 por cento da sua população), êxitos do rock, música francesa (a cultura de França é igualmente importante nestas ilhas), sinfonias clássicas ou até a nossa “Coimbra” (no CD da Tradisom dedicado às múltiplas versões deste tema espalhadas pelo mundo, lá surge a Lambeth Community Youth Steel Orchestra a tocar, com garbo, a canção).
E tal como a guitarra portuguesa com o fado, o bandoneon com o tango, a kora (que o próprio Anthony Joseph refere logo no tema de abertura desse álbum, recordando as raízes africanas do seu povo) com a música mandinga ou o bouzouki com a rebetika, também a sonoridade única das steelpans acabou por influenciar toda uma maneira de criar, sentir e viver a música deste país das Caraíbas cravado no Atlântico, ali mesmo rés-vés Venezuela. E é daí – via Londres (e via tanto outro mundo que ele conhece e nos dá a conhecer) – que nos chega o enorme Anthony Joseph, muitas vezes apresentado como “o líder da vanguarda negra na Grã-Bretanha”. Poeta, romancista, músico, conferencista, professor universitário, permanentemente empenhado na defesa dos imigrantes, dos negros e de outras minorias neste país . Um país que tomou posse de Trindade e Tobago em 1797, sucedendo assim à Espanha (foi Cristóvão Colombo que achou estas ilhas no ano de 1498), e do qual conquistou a independência em 1962.
Mas, ainda antes dessa data, foram às dezenas ou centenas de milhares os emigrantes que saíram das Antilhas e das Caraíbas para aportar nas grandes cidades de Inglaterra. Em 22 de Junho de 1948, um navio de nome HMT Empire Windrush atracou perto de Londres com 802 pessoas a bordo. E foi o marco inicial de um surto migratório massivo, ainda hoje celebrado. Recordando os 70 anos dessa data, em 2018 a prestigiada revista britânica de músicas do mundo Songlines publicou um extenso artigo sobre a importância da música que essa primeira grande vaga de imigrantes antilheses e caribenhos, de remota origem africana, nos deixou. E, num artigo ao lado, selecciona os dez álbuns essenciais da Geração Windrush, onde constam nomes que essencialmente vieram da Jamaica ou de Trindade e Tobago: Arrow, Calypso Rose, John Holt, Linton Kwesi Johnson, Mighty Sparrow, David Rudder, The Skatalites, Steel Pulse, The Wailers e a colectânea (cujo título é inspirado numa canção do lendário Lord Kitchener, embarcado exactamente no Empire Windrush) “London is the Place for Me: Trinidadian Calypso in London, 1950-56”. Uma lista onde, para além de outros nomes da soca e do calipso do seu país, Anthony Joseph se reverá de caras bastando para isso referenciar três deles: Linton Kwesi Johnson, um dos seus mestres na arte do spoken-word (e autor de um elogio oficial ao seu primeiro romance, “The African Origins of UFOs”, de 2006); Mighty Sparrow, a quem Anthony Joseph dedicou a sua canção “Slinger” (o verdadeiro nome do “rei do calipso” era Slinger Francisco); e Lord Kitchener - o último romance (editado em 2018) de Anthony Joseph é, justamente, “Kitch: A Fictional Biography of a Calypso Icon” (livro baseado na sua tese de doutoramento e num documentário para a BBC centrado nas suas pesquisas).
Nascido em Porto de Espanha, capital da ilha de Trindade (e do país), no ano de 1966, Anthony Joseph começou a escrever – essencialmente poesia – ainda na infância, quando vivia em Trindade com os avós. Residente no Reino Unido desde 1989, tornando-se um dos seus principais cidadãos e vultos da cultura – e uma voz importante e interveniente em que temas como a escravatura, o colonialismo ou o imperialismo estão (sempre) bem presentes. Não por acaso, em 2004 ele foi considerado “um dos cinquenta escritoras que influenciaram o cânone da literatura negra-britânica dos últimos cinquenta anos”. Com vários livros de poesia editados – “Desafinado” (1994), “Teragaton” (1997), “Bird Head Son” (2009) e “Rubber Orchestras” (2011) - para além dos dois romances já referidos, Anthony Joseph começou, gradualmente, a expandir a sua arte poética para a área musical, publicando em 2005 o EP “Buddha” (assinado por DJD ft Anthony Joseph) e em 2006 o EP “Heavenly Sweetness” (em que declamava, tocava percussões e trompete), ambos em vinil de 12 polegadas. Já com a sua The Spasm Band editou os álbuns “Leggo De Lion” (2007), “Bird Head Son” (2009), “Rubber Orchestras” (2011) e “Live In Bremen” (2013). A solo assina os álbuns “Time” (2014), “Caribbean Roots” (2016) e o mais recente “People of the Sun” (2018). E, entre outros projectos, participa em discos dos Mop Mop (“Isle of Magic”, 2013) e Brzzvll (“Engines”, 2014), para além de ter um álbum gravado com o saxofonista polaco de jazz Adam Piero?czyk (“Migratory Poets” - e só o nome é um manifesto inteiro -, 2015).
Por tudo isto, e muito mais, o concerto de Anthony Joseph vai, de certeza, ficar como um dos maiores marcos históricos do Festival Med, em Loulé.









Organização

Parceiros Media