BITORI feat. CHANDO GRACIOSA

Palco: Matriz Map
30 Junho, 22:30

Não se sabe muito bem quando é que um género – ou uma formação musical que interpretava vários géneros diferentes mas sempre com dois instrumentos específicos – chamado funaná nasceu na Ilha de Santiago, em Cabo Verde. E mesmo a origem do nome é objecto de controvérsia: há uma lenda que defende que a designação ve de um casal de músicos, Funa e Naná, ele no acordeão (ali conhecido como gaita) e ela num comprido reco-reco de metal percutido por uma faca (o ferro); outra que diz derivar esta da palavra portuguesa “fungagá”, onomatopeia que significa chinfrineira, barulho ou, muito simplesmente, “má música”. Conta-se que as autoridades portuguesas, nas últimas décadas de domínio colonial sobre estas ilhas plantads ao largo da costa ocidental africana, proibiram a exibição pública (cantada, tocada ou dançada) do funaná devido às suas características “selvagens”, “eróticas” e “subversivas”, mas isso não impediu que muitos cabo-verdianos o cultivassem às escondidas – à semelhança de outros géneros hereges ou perigosos como o batuque o ou o Kola San Jon -, par a par com as mais toleradas mornas ou caladeiras.
E foi só depois da independência de Cabo Verde, em 1975, que se começou a recuperar o funaná como música de execução pública e, pouco tempo após, de edição discográfica. Pioneiros deste movimento em que à gaita e ao ferro se juntavam outros instrumentos, muitos deles eléctricos, foram os Bulimundo – onde pontificavam Katchás e Zeca di Nha Reinalda – e, de seguida, os Finaçon – fundados por Zeca di Nha Reinalda depois de sair dos Bulimundo. E, ao longo das últimas cinco décadas, muitos outros nomes transformaram o funaná num fenómeno dançante que saltou as fronteiras de Cabo Verde: Ferro Gaita, Codé di Dona, Sema Lopi, Julinho da Concertina, Kino Cabral, Beto Dias, Chando Graciosa, Bitori - também conhecido como Bitori Nha Bibinha e o protagonista deste texto – ou, mais recentemente, projectos híbridos e aventureiros como o grupo franco-cabo-verdiano La MC Malcriado (funaná com hip-hop) ou o luso-cabo-verdiano Scúru Fitchádu (funaná com… punk!).
Nome maior do funaná – principalmente depois da respeitada editora Analog Africa ter ressuscitado o seu álbum “Bitori Nha Bibinha”, editado quase de maneira secreta em 1997, e o ter reeditado em 2016 com o título “Legend of Funaná”, com enorme e global aplauso da crítica e do público – Bitori nasceu a 10 de Março de 1938 em São Nicolau Tolentino, na ilha de Santiago. Como nome de baptismo tem um singelo Victor Tavares, mas é como Bitori (corruptela de Victor/Vítor) e, principalmente, Bitori Nha Bibinha (em homenagem à sua mãe) que ele é há muito conhecido. Agora com oitenta anos, Bitori tem uma vida pública dedicada à música – como acordeonista e compositor –, ao seu ensino (ele é um apaixonado professor de gaita) e, nos últimos anos, à divulgação do funaná mais tradicional mercê do sucesso do já referido disco. Um disco a que se sucederá um novo ainda este ano, o seu segundo de originais.
Da sua vida mais privada sabe-se pouco. Sabe-se que com apenas dezoito anos partiu para as roças de cacau em São Tomé e Príncipe para aí ganhar dinheiro para comprar o seu primieor acordeão. Sabe-se que a sua morada actual é Tchadinha, nos arredores da Praia. Sabe-se que teve várias profissões ao longo da sua (longa) vida, sendo a mais regular a de pedreiro. Mas da música sabe-se um pouco mais. Por exemplo, que ao seu lado na gravação do álbum de 1997 estava o cantor Chando Graciosa (que também toca ferro). O mesmo Chando Graciosa que depois emigraria para a Holanda – e que viria a ter uma carreira musical de enorme sucesso - mas que é agora presença fiel nos seus concertos e na gravação do novo álbum. Sabe-se também que, naquele disco assim como nos seus concertos, “Bitori deu (e continua a dar) expressão ao funaná tradicional, cru, celebratório, sincrético e, igualmente, arma de protesto e de rebelião camponesa tocado por badius de Santiago, que falava de fome, sangue, suor e lágrimas”, segundo as sábias palavras do crítico musical Luís Rei. Uma lenda (viva) está a chegar.









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