BONGA

Palco: Matriz Map
28 Junho, 00:30

Pensa-se em Bonga… e ouve-se logo a sua voz; sentimos de imediato o peso da sua música. Uma voz, aquela voz, grave e profunda, feita de lixa e de veludo, capaz do grito e do murmúrio, voz que traz nela séculos de História, línguas que se poderiam ter perdido e, sempre, um enorme desejo de liberdade (política, ética, artística…). Uma música, a sua música, que parte dos ritmos tradicionais angolanos para o mundo e onde cabem – para além das sonoridades do seu país natal – o funk e a soul, a morna cabo-verdiana e o zouk das Antilhas, as músicas do Brasil e de Portugal. E depois ainda há sua figura, de atleta-embondeiro, e a sua sabedoria, imensa e antiga, que ilumina as gerações que vieram depois dele.
José Adelino Barceló de Carvalho, mais conhecido como Bonga (ou Bonga Kwenda), nasceu em Porto Kipiri, província do Bengo, Angola – então um território ultramarino português - no ano de 1942. E desde criança começou a desenvolver duas enormes paixões: o atletismo e a música. Da primeira ficam para a História as vitórias em inúmeras corridas Angola fora – que lhe valeram a alcunha de Zeca (o Trepidante) e, em 1966, o salto para Portugal, onde representou o Benfica e foi várias vezes campeão nacional e recordista dos 400 metros. A outra começou a germinar quando a sua avó Engrácia lhe ensina canções de embalar interpretadas em kimbundu e desenvolveu-se quando, já a viver num musseque de Luanda, se iniciou nos segredos da dikanza – o enorme reco-reco que ainda hoje é sua imagem de marca – para acompanhar a concertina do pai. Em família começou a entender as diferenças e os segredos do semba, da rebita, da kabetula, do kilapanga, da kazukuta e de outros géneros tradicionais angolanos. Primeiro com o pai, depois com os amigos, conheceu os segredos de outros instrumentos africanos antigos – o kissange, a marimba, o chocalho, a ngoma (batuque), o hungu (berimbau), a pwita (cuíca)… – ao mesmo tempo que também partia à descoberta de outras músicas, europeias, de outros lugares de África e norte e sul-americanas. Mas, destes anos de formação, nunca esqueceu os valores essenciais (e universais) da música: a luta e o luto, a alegria e a tristeza, o amor e a festa.
Ainda em Luanda, funda os grupos musicais Kissueia e Kibandos do Ritmo, que viriam a ter uma vida breve e deixaram apenas um registo discográfico: o single “Balumuca”, assinado pelos Kibandos. E foi já em 1972 - depois de ter deixado uma Lisboa ainda assombrada pelo Estado Novo mas onde conheceu (e colaborou com) outras figuras gradas da música angolana como o Duo Ouro Negro, Eleutério Sanches, Lilly Tchiumba, Ruy Mingas ou Vum Vum Kamusasadi – que se exila na Holanda e edita o seu primeiro álbum, “Angola 72”, um marco da música angolana de resistência – política, cultural e ritual. Um álbum, assinado já com o nome de Bonga, que teria continuação lógica em “Angola 74”, lançado dois anos depois. Dois discos que mostravam já vários dos caminhos da sua música, entre uma vincada e respeitosa ligação às suas raízes angolanas e o amor por outros géneros (nomeadamente a música cabo-verdiana, tendo gravado no segundo álbum, e anos antes de Cesária Évora, o célebre “Sôdade” com o título de “Kamin Longe”).
A partir daí o seu percurso tornou-se imparável, marcante e em muitos aspectos pioneiro, servindo de exemplo - e de memória viva - para muitos outros cantores e músicos. Dezenas de álbuns gravados – sendo que os que lançou na última década e meia (“Maiorais”, “Bonga Live”, “Bairro”, “Hora Kota” e “Recados de Fora”) foram-no através da respeitada editora francesa Lusafrica – e, sempre, a vontade de criar uma música aberta, livre, transversal e universal. Não-alinhado, Bonga regressaria a Portugal depois da Revolução de Abril e da Independência de Angola para aqui prosseguir a sua carreira. Voz incómoda, nunca deixou de a levantar para apontar o dedo à situação política, social e económica do seu país de origem. Artista sobredotado, das suas mãos jorram centenas de poemas cantados em português, em kimbundu e outras línguas angolanas embrulhadas numa música imensa e que é só dele, apesar de tão nossa. “Marika” e “Mariquinha”, “Marimbondo” e “Mulemba Xangola”, “Balumukeno” e “Ngui Tename”, “Sambila” e “Gerações”, “Frutas de Vontade” e “Olhos Molhados” (mais conhecido como “Tenho Uma Lágrima no Canto do Olho”), “Kambua” e “Galinha Kassafa” ou os mais recentes temas-título de “Hora Kota” e “Recados de Fora”… Tudo, tudo dele, e tudo, tudo nosso.
Bonga significa “aquele que se levanta, que está sempre em contínuo movimento”. Na vida como na arte, na música como na poesia, nos discos como em palco, é só isso e nada mais que isso que podemos esperar do grande, enorme, Bonga Kwenda.









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