Cais do Sodré Funk Connection

Palco: Chafariz Map
29 Junho, 22:00

Os blues, que nasceram originalmente nos territórios da África Ocidental que formaram o enorme Império Mandinga e foram inventados pelos griots – os menestréis que com as suas vozes e palavras, koras e balafons, djembés, chocalhos nos pés e tambores que falam -, formaram-se séculos depois, já no abençoado “lodo original” das margens do Rio Mississippi, dando por sua vez origem ao gospel, ao jazz, boa parte da folk e até do country dos brancos – eles, os blues, que apesar de terem este nome azulado que remete para a sua tristeza (a mesma que encorpa o fado, o flamenco, a rebetika, a morna, a milonga, a rumba, a canção napolitana, o choro… tenham estes géneros todos mais ou menos ADN africano) são negros por natureza – e viriam depois a dar corpo ao rhythm’n’blues original, ao rock, ao heavy-metal, ao punk ou ao grunge. E, com uma negritude maior, à soul e ao funk.
O funk que, por sua vez esteve na origem directa do afrobeat – num caminho de regresso a África encetado pelo nigeriano Fela Kuti, fã confesso de James Brown -, do disco sound, do hip-hop (ao lado das influências idas da Jamaica, via toasters e sound-systems), do electro, do house, do tecno, do drum’n’bass… Os blues são uma música campestre que se tornou portuária (tal como muitas das músicas regionais antes referidas) quando, na cidade de Nova Orleães – onde desciam dos navios gentes de muitos mundos à semelhança do que sucedia em Lisboa, Buenos Aires, Rio de Janeiro, Sevilha ou Atenas – se cristalizou em jazz. O seu filho funk, por sua vez, já é uma música de cidade industrial (apesar do lado portuário que também tem): indo buscar a sua inspiração primeira ao jazz – e muito especialmente ao bebop -, à soul e ao r&b (o original, repete-se), os criadores do funk juntaram-lhe uma africanidade ainda maior através de uma secção rítmica que um baixo eléctrico e uma bateria permitiam nos anos 60 e muitas vezes juntando-lhe uma secção de metais sucedânea do swing, do bebop e até do nascente free jazz e, ainda, percussões variadas. E juntaram-lhe também as palavras cortantes, intervenientes, corajosas e lutadoras, dando muitas vezes voz e substância aos protestos pelos Direitos Civis dos afro-americanos.
E, em Memphis – cidade portuária mas também industrial que fica igualmente nas margens do Mississippi, mas 650 quilómetros a norte de Nova Orleães (até há cruzeiros pelo rio que ligam as duas cidades) – viria a surgir, em 1957, a Stax Records, editora que foi a casa da maior parte dos grandes nomes do funk. Nessa companhia discográfica ou noutras, criaram a sua arte James Brown, Sly & the Family Stone, Parliament/Funkadelic, Chaka Khan, Labelle, Brides of Funkenstein, Cameo, The Bar-Kays (os músicos-maravilha que acompanharam muitos dos outros aqui mencionados em estúdio), Kool & The Gang, Earth, Wind & Fire ou The Winstons, raramente lembrados pela História mas os inventores do Amen Break que tanta gente do rap e das electrónicas tem samplado.
Lisboa tem indústria e é porto de mar. É local de cruzamento, partilha, criação e música de gentes de todo o mundo. E é, cada vez mais e para o melhor e para o pior, uma cidade realmente cosmopolita. E não é por isso – nada! – de estranhar que num dos seus portos, o Cais do Sodré, tenha nascido um grupo musical chamado Cais do Sodré Funk Connection que reúne o baixista Francisco Rebelo e o teclista João Gomes – habituais parceiros em tantos outros projectos (Cool Hipnoise, Spaceboys, Orelha Negra, Fogo Fogo…) ao cantor Silk (Fernando Nobre), à cantora Tamin (Telma Santos), ao guitarrista David Pessoa e ao baterista Rui Alves, para além dos sopradores-mor João Cabrita, José Raminhos e Miguel Marques.
Com um primeiro álbum editado em 2012, “You Are Somebody”, e um segundo em 2016, “Soul, Sweat and Cut the Crap” (o vídeo de um dos singles retirados deste disco, “Offbeat”, realizado por Richard F. Coelho, ganharam o prémio de melhor vídeo de música no Cannes Short Film Festival), os Cais Sodré Funk Connection já fizeram as primeiras partes de nomes consagrados como Sharon Jones & The Dap-Kings e Lionel Ritchie e fizeram parcerias com o norte-americano Rickie Calloway, Paulo de Carvalho, Eduardo Nascimento e António Calvário. Com um álbum, o terceiro, novinho em folha para apresentar – “Back on Track” – os Cais Sodré Funk Connection vêm ao Med de Loulé mostrar como o funk, a soul ou o r&b também ficam tão bem em portugueses e africanos de uma Lisboa cada vez mais mestiça e misturada (ver, a propósito, o texto sobre Dino D’Santiago).









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