Dead Combo

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28 Junho, 21:30

Nascido em Nova Iorque, Anthony Bourdain foi um famoso chef de cozinha e apresentador de programas de televisão sobre as gastronomias do mundo. Inteligente, curioso, aventureiro, corajoso – tanto podíamos vê-lo a comer um canguru cozinhado debaixo de terra durante quinze dias na Austrália como a experimentar lampreia num restaurante do Porto -, viajante incansável e amigo dos bons prazeres da vida: comer, beber, fumar (muito!), conhecer novas terras, novas culturas e novas gentes, amar... E foi o amor que o matou. Na manhã de 8 de Junho do ano passado suicidou-se num quarto de hotel em Kaysersberg, França, quando estava a filmar mais um episódo da sua série “Parts Unknown”. Os amigos próximos sustentam que a causa da morte terá sido um súbito ataque de ciúmes provocado pela visão de uma fotografia da sua ex-namorada Asia Argento (actriz, realizadora, cantora... até ao lado de The Legendary Tigerman) com outro homem.
Apesar da sua carga trágica evidente, e real!, que grande história isto daria para colocar numa canção. Num blues ou numa canção jazz das antigas, num fado, num tango, numa morna, numa ranchera, numa rebetika, numa canção soul ou numa canção country (e em tantas outras). Naquelas músicas em que o amor, a perda, a traição, a morte são o mote e a chave. E há lá morte mais trágica do que a de um suicida? Que é isso comparado com a morte de quem a espera por doença, solidão, velhice ou por estar no crime ou na guerra – e que também já deram belas e tristes canções – ou a morte, inesperada e imediata e também ela já inevitavelmente cantada, num acidente de viação, num assassinato ou numa catástrofe natural?
Ou, então, numa canção dos Dead Combo, que têm todos os géneros referidos – e ainda outros – reunidos na sua música. Mas, dirá o nosso leitor mais atento, canção? Canção cantada mesmo? Pois, a verdade é que os Dead Combo fazem essencialmente música instrumental (apesar das excepções referidas à frente e em que têm cantores convidados), mas quem é que diz que os instrumentos não contam histórias? Oiça-se, e diga-se lá que não há histórias lá dentro?, aquelas que são contadas pelo trompete de Louis Armstrong, a kora de Toumani Diabaté, o piano de Chopin (este nunca pôde ser, de facto, ouvido mas a ideia percebe-se) ou a guitarra portuguesa de Carlos Paredes, este também no rol de preferências dos Dead Combo e descido lá das alturas dos imortais para lhes insuflar o primeiro sopro de vida, em 2013.
Porque, como escreveu o jornalista Mário Lopes um dia, “os Dead Combo, que não cantam, conhecem muito bem o som das palavras”. E é com esse som que contam as suas histórias. O caminho de Anthony Bourdain – que começa por protagonizar esta narrativa – cruzou-se com o de Pedro Gonçalves e Tó Trips, os dois Dead Combo, em 2012, quando o aventureiro norte-americano vem filmar um episódio da série “No Reservations” em Lisboa (ele que também passou pelos Açores e pelo Porto), os entrevista e escolhe a sua música como banda-sonora completa do episódio. O resultado do encontro é completamente inesperado: com a transmissão desse programa nos Estados Unidos, nas semanas seguintes três álbuns dos ‘tugas – e a fazerem música instrumental! – Dead Combo sobem aos dez primeiros lugares do Top do iTunes. O realizador de culto David Cronenberg convida-os para tocarem como “primeira parte” de um filme seu no Festival de Cannes, protagonizam um concerto – com Marc Ribot como convidado – no Central Park de Nova Iorque… E, o ano passado, eles diziam em entrevista que ainda estavam a ser descobertos na Indonésia por fãs de Bourdain.
(Um parêntesis necessário: quando há bocadinho se escreveu que Carlos Paredes foi o padrinho de Dead Combo estávamos a usufruir de enorme liberdade, digamos assim, poética porque a verdade é que…)
O verdadeiro padrinho do duo foi o radialista Henrique Amaro, da Antena 3 e profundo conhecedor de música portuguesa. E foi nesse ano de 2002 que Amaro, que estava a organizar uma colectânea dedicada a Carlos Paredes, “Movimentos Perpétuos”, decidiu convidar dois músicos que nunca tinham tocado juntos e só vagamente se conheciam. E o resultado foi um tema original, “Paredes Ambiance”, incluído nessa compilação. Vindos do rock – o guitarrista Tó Trips (ex-Lulu Blind, ex-Santa Maria Gasolina em Teu Ventre…) – e do jazz – o contrabaixista (mas também tocador de melódica, kazoo e diversas guitarras) Pedro Gonçalves -, os dois rapidamente se aperceberam que, para além destes dois géneros, partilhavam o mesmo gosto por muitos outros estilos (quase todos eles já mencionados). E o resto é… História.
Uma História que, resumida, já conta com sete álbuns de originais e dois ao vivo, para além de inúmeros concertos em salas e festivais ou a participação na banda-sonora do filme “Focus”, de Glenn Ficarra e John Requa, para além da banda-sonora completa do filme "Slightly Smaller Than Indiana", de Daniel Blaufuks, e a criação internacional de um espectáculo para crianças: “A Cidade da Tristeza Profunda”. Discos de estúdio: “Vol.1” (2004), “Vol. 2 - Quando A Alma Não É Pequena” (2006), “Guitars From Nothing” (2007), “Lusitânia Playboys” (2008, que tem como convidados o vocalista dos norte-americanos Giant Sand, Howe Gelb, Kid Congo Powers, Carlos Bica, Ana Quintans, Alexandre Frazão, Zé Vilão, João Marques e Nuno Rafael), “Lisboa Mulata” (2011; que tinha como participantes externos Marc Ribot, Camané, Sérgio Godinho e Alexandre Frazão), “A Bunch of Meninos” (2014) e o recente “Odeon Hotel” (2018), produzido por Alain Johannes (PJ Harvey, Queens of The Stone Age…) e com convidados como Mark Lanegan, Alexandre Frazão, Bruno Silva, Mick Trovoada e João Cabrita. Ao Vivo: “Live Hot Club” (2009), “Live at Teatro São Luiz” (2014). DVD: “Dead Combo & Royal Orquestra das Caveiras” (2010).
Apesar de serem árduos trabalhadores, como se pode ver por tudo o que ficou para trás, Tó Trips e Pedro Gonçalves não vão carregar com o trabalho todo sozinho no seu concerto do Med de Loulé. Com eles costumam estar em cima do palco Alexandre Frazão na bateria, António Quintino no contrabaixo e Gui (dos Xutos & Pontapés) no saxofone. Um quinteto que vai contar histórias e voltar a fazer História no Med (onde já triunfaram, corria o ano de 2013).
Neste momento, este virtuoso duo tem contado com a colaboração de Alexandre Frazão (bateria), Gui (DOS Xutos; sopros) e António Quintino (contrabaixo).
«Os Dead Combo, que não cantam, conhecem muito bem o som das palavras.» (Mário Lopes).









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