Diabo na Cruz

Palco: Chafariz Map
27 Junho, 00:00

Os Diabo na Cruz morreram! Vivam (ainda e sempre) os Diabo na Cruz!!!
A notícia caiu que nem uma bomba no meio musical português no dia 22 de Maio de 2019: os Diabo na Cruz acabaram oficialmente… mas vão honrar os seus compromissos anteriormente assumidos e realizar os concertos já agendados antes do anúncio, incluindo o que está marcado para o Festival Med de Loulé; eles que nos deixaram uma forte marca, sublinhada a cheiros de enxofre infernal e flores dos campos, quando por cá passaram em 2010. Mas os Diabo na Cruz chegam aqui – para mais um olá e, infelizmente, um adeus definitivo - com uma baixa de peso: a do seu fundador, Jorge Cruz, que já não vai participar nestes espectáculos, substituído na voz por Sérgio Pires (também na viola braguesa) enquanto Daniel Mestre entra para a banda aos comandos da guitarra eléctrica. Segundo o comunicado oficial do seu agente, José Morais, “o Jorge já não se sentia bem a fazer o que fazia e o projeto chegou ao fim. Estava combinado que o disco ('Lebre', de 2018) fazia o fecho, e depois os concertos, mas o Jorge achava que já não faz sentido fazer esse papel”.

Os Diabo na Cruz morreram! Vivam (porque eram e são tão importantes) os Diabo na Cruz!!!
Se tivéssemos que fazer um imaginário, especulativo e eventual (e já alguém reparou como todo o início desta frase está cheio de redundâncias directas e indirectas?) Top 10 dos melhores nomes da música portuguesa a misturar a tradição rural do nosso país com o rock – feito com instrumentos eléctricos ou electrificados -, os Diabo na Cruz teriam que figurar nesta lista, ao lado do Conjunto Mistério, Banda do Casaco, Trovante, António Variações, Sétima Legião, Ocaso Épico, Sitiados, Dazkarieh e Uxu Kalhus. E, se olharmos bem para esta lista vamos verificar que os Diabo na Cruz sempre mostraram afinidades com uma, duas ou mais características de todos estes nomes, para além das suas e muito suas, mais pessoais e intransmissíveis.

Os Diabo na Cruz morreram! Vivam (porque eram e são tão eclécticos e abrangentes) os Diabo na Cruz!!!
Há alguns anos, interrogado – na Time Out Lisboa - sobre quais as suas influências – e não tanto dos outros Diabo na Cruz, embora isso se viesse a reflectir obviamente nas suas canções – nas áreas que o perguntador achava que o grupo tinha como faróis estéticos maiores, Jorge Cruz referiu Jorge Palma (cantautor); Walt Wihtman (poeta… não português, mas por ter “uma energia, uma força quase fundadora de um país. Transportando isso para a canção portuguesa, acho que as nossas figuras maiores – o Zeca Afonso e a Amália Rodrigues, em particular – têm esse tipo de característica; parece que carregam a música toda de um país ao mesmo tempo”); Xutos & Pontapés (rock português); “Cantiga da Ceifa” (“Por Riba se Ceifa o Pão”), cantada pela Ti Chitas (uma recolha de Michel Giacometti); Gaiteiros de Lisboa e Banda do Casaco (grupo de reinvenção da música tradicional portuguesa); TV5 (conjunto de baile; seja ele qual for…); Orquestra Típica Albicastrense (rancho folclórico); Marco Paulo (música ligeira); e Quim Barreiros (música pimba).

Os Diabo na Cruz morreram! Vivam (porque têm uma história tão mas tão bonita) os Diabo na Cruz!!!
Foi há onze anos que os Diabo na Cruz deram os primeiros passos – e, se se reparar bem, este número em numeral mesmo até parecem dois corninhos. Imaginada por Jorge Cruz, cantautor da Gafanha da Nazaré e já com vários projectos a solo ou semi-solo (Superego) no CV, e coadjuvada por vários outros músicos vindos do rock alternativo ou da nova fornada de cantautores assombrados pela tradição - Bernardo Barata (baixo), João Pinheiro (bateria), B Fachada (viola braguesa) e o João Gil-que-não-era-dos-Trovante (teclados), a aventura dos Daibo na Cruz estava prestes a começar. E que aventura! Com os nomes citados anteriormente – e alguns outros na memória (colectiva) como José Afonso, Sérgio Godinho ou Fausto Bordalo Dias -, a banda arrasou Portugal de lés-a-lkés com os concertos que se sucederam (ou deram origem) a “Dona Ligeirinha” (EP, 2009), “Combate” (2010) e “Saias” (2016) e os álbuns “Virou!” (2010), “Roque Popular” (2012), “Diabo na Cruz” (2014), “Ao Vivo” (2018) e “Lebre” (do mesmo ano). E, quer ao vivo, quer em disco, deles ficámos sempre com uma certeza: Estes loucos estão certos; é preciso ouvi-los.

Os Diabo na Cruz morreram! Vivam (porque antes disso ainda cá vêm tocar) os Diabo na Cruz!!!
Escrever o panegírico e ao mesmo tempo cantar um belo requiem em honra de alguém é uma coisa estranha. Porque o panegírico é-lhe dirigido, directamente, em vida enquanto os requiens, os discursos fúnebres, as elegias ou os epicédios são dedicados a quem já morreu. Por isso, não percamos mais tempo e, depois desta crónica de uma morte anunciada, saudemos quem ainda vem aqui tocar para todos nós. Em palco, no Med, vão estar Bernardo Barata, João Pinheiro, João Gil, Manuel Pinheiro, Sérgio Pires e Daniel Mestre, a banda agora conhecida como Diabo (que está mesmo a morrer) na Cruz. Dancemos, cantemos… E que tudo o mais vá p’ró Inferno!









Organização

Parceiros Media