Dino D'Santiago

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29 Junho, 21:30

A Lisboa - cidade que foi durante séculos capital de um império colonial em África e na América do Sul - chegam todos os dias muitas pessoas vindas de países que falam português. Um português híbrido, vivo, mestiço, em constante mutação. Falado por gente de Angola, Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau, S. Tomé e Príncipe, Brasil... E, entre eles, muitos músicos que, em Lisboa e com outros músicos, africanos, brasileiros e portugueses, misturam as músicas de raiz dos seus países com muitos e variados géneros que nos são exteriores: jazz, funk, soul, disco, electro, tecno, hip-hop, drum'n'bass, reggae, tudo junto num caldeirão em ebulição permanente de criatividade e liberdade. E num jogo de espelhos interminável.
E isto é assim desde há muito, muito tempo! Na origem do fado estão – e referindo-nos só a Lisboa, não às origens históricas e remotas do género (o fado, a morna de Cabo Verde e o choro do Brasil, só para referirmos as mais óbvias) partilham uma raiz comum, o africano lundum - muitos cantores e músicos de sangue africano e brasileiro; bastando para isso conferir no livro “História do Fado”, de Tinop (Pinto de Carvalho), editado em 1904, a quantidade de nomes de fadistas que aludem à cor da sua pele (só para resumir, um deles era o mulato José Luís, conhecido como Pau Real, o Chico Macaco, o António Carapinha, a Cartuxa…). E, se nos centrarmos especificamente na música cabo-verdiana, muitos dos seus maiores nomes viveram, vivem ou nasceram em Lisboa (e nos seus arredores), a começar por B.Leza que, vindo para a capital portuguesa integrada na comitiva de músicos cabo-verdianos que participaram naquela invenção de António Ferro, para (mais um) agrado a Salazar, chamada Exposição do Mundo Português (1940), e por cá viveu, escreveu e compôs durante largos anos. E a culminar em nomes como Fernando Quejas, Tututa, Bana, Tito Paris, Dany Silva, Paulino Vieira, Celina Pereira, Ana Firmino, Titina, Nancy Vieira, Sara Tavares, Lura, Carmen Souza, o grupo de batucadeiras Finka Pé, muitos rappers cujos nomes não cabem aqui… ou Dino D’Santiago, este, português de ascendência cabo-verdiana nascido no Algarve. Não é, portanto, por acaso que em “Lisboa, capital di sôdade” se canta: “Êsse ê qu’ê Lisboa / Nôs Terra d’adoçon”.
Mas, antes e depois da revolução portuguesa de 1974 – e mesmo após a independência de Cabo Verde (em 1975) – a relação de Portugal e dos portugueses com a música cabo-verdiana (e africana em geral) nem sempre foi o que é agora. Era convicção das editoras portuguesas, da histórica Valentim de Carvalho - que criou um nicho de mercado em Angola durante os anos 60 – a outras companhias discográficas nacionais ou multinacionais que “a música africana não vendia”. E não foi por isso de estranhar que o (abençoado seja ele!) José da Silva viesse a criar a mais importante editora de música cabo-verdiana de sempre, a Lusáfrica… em Paris, depois de ter tentado estabelecê-la, sem sucesso, em Lisboa.
E tivemos que chegar à segunda metade da primeira década deste novo século, por volta de 2005, 2006 e 2007, para nos apercebermos que as coisas estavam definitivamente a mudar e que os lisboetas – e os portugueses e o mundo em geral – começavam finalmente a entender Lisboa como uma cidade crioula, mestiça, misturada… muito mais do que uma cidade de brancos, portugueses e europeus onde o fado, e só ele, era rei. Foi por essa altura que surgiu o saudoso África Festival, o Lisboa Mistura, o importantíssimo livro “Lisboa na Cidade Negra”, de Jean-Yves Loude e o fabuloso documentário “Lusofonia, A (R)evolução”. Produzido pela Red Bull Music Academy, com guião de Artur Soares da Silva e João Xavier, esta obra era – e, pela sua actualidade, ainda o é hoje – o espelho perfeito de uma nova realidade que está em construção em Lisboa: a criação de uma música híbrida, viva, mutante, feita dos cruzamentos e da fusão de músicas africanas e brasileiras com música portuguesa (nomeadamente o fado) e com géneros anglo-saxónicos.
Produto óbvio de 500 anos de convívio, miscigenação e trocas entre Portugal, África e Brasil, a nova música feita na capital portuguesa, uma cidade cada vez mais cosmopolita, está aberta a centenas de influências e incontáveis fusões possíveis. Neste documentário fala-se de «hip-hop em crioulo, música de dança com samples de kuduro, letras em português sobre estruturas contemporâneas» e de muitas outras misturas em desenvolvimento em Lisboa e nos seus arredores onde se concentram as comunidades africanas. Um documentário em que Sara Tavares dizia logo a abrir: “no estrangeiro há muita gente que não sabe que há portugueses pretos”. Assim como, geralmente, se desconhece, citando João Gomes, teclista dos Cool Hipnoise (e de vinte e tal outros projectos, como referido num documentário de Branko), que “toda a gente em Portugal tem contacto com o merengue, a marrabenta e com ritmos cabo-verdianos (mornas, coladeiras, funanás...). Qualquer lisboeta ouviu música diferente de alguém de Milão ou de Paris ou de outra qualquer cidade europeia”.
(FFW) Em 2019, ano em que Dino D’Santiago regressa ao Med de Loulé, depois de neste festival se ter estreado em 2014, já não é de estranhar que este cidadão português e do mundo – marafado e badio, alfacinha e tripeiro – nascido com o nome de Claudino de Jesus Borges Pereira, em Quarteira, arrebate várias estatuetas dos PLAY – Prémios da Música Portuguesa, chegue ao primeiro lugar do Top nacional com o seu novo álbum, “Mundu Nôbu” ou seja o cicerone preferencial de Madonna por Lisboa (e as suas mil músicas que já não é só uma). Apadrinhado, ao vivo, por Tito Paris, Dino D’Santiago (nome artístico inspirado pelo da ilha de Cabo Verde onde os pais nasceram) lançou o seu primeiro álbum ”Eu e os Meus”, em que era acompanhado pela banda The Soulmotion em 2008; um disco em que está próximo da grande música negra norte-americana, nomeadamente de Marvin Gaye e Ray Charles, mas em que tem como convidados Tito Paris, Sam the Kid e Valete. Em “Eva” (que esteve para se chamar “Distinu d’um Criolo”), de 2013 e editado pela Lusáfrica, aproxima-se decisivamente das sonoridades cabo-verdianas (e até inclui um clássico d’Os Tubarões – será que vai cantar aqui com eles? -, “Djonsinho Cabral”).
E em “Mundu Nôbu”” (2018) reflecte, com a ajuda de Branko, Kalaf Epalanga – dois ex-Buraka Som Sistema - Paul Seiji (Bugz In The Attic) e outros cúmplices especiais, muitas das sonoridades de que é feita esta “Nova Lisboa” (nome de um dos singles retirados deste disco). Uma Nova Lisboa, e um Mundo Novo, em que a tradição – estão mesmo lá batucos e funanás - encontra decisivamente a modernidade. Colaborador de muitos outros músicos – fez parte da Jaguar Band que acompanha os portuenses Expensive Soul e partilhou os Nu Soul Family com Virgul (ex-Da Weasel) – como Paulo de Carvalho, Tito Paris, Paulo Flores, Fuse, Kumpania Algazarra, Tribruto, Carlão, NBC, Stereossauro, João Pires, BISPO, Miroca Paris, Madonna ou Panda Bear (outro músico norte-americano a viver em Lisboa e que, por vezes, ainda faz parte dos Animal Collective), e depois de várias voltas pelo mundo em concerto, Dino D’Santiago regressa agora ao Med para, e mais do que nunca, tocar mesmo em Casa.









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