DJ RIOT

Palco: Matriz Map
29 Junho, 02:30

O grande cantor e compositor Bonga, conhecedor profundo dos géneros mais antigos da música de Angola, defende que o kuduro não é mais do que uma versão acelerada, moderna, electrónica, sintetizada, de estilos como a rebita, a kazukuta ou a kabetula. E não é difícil perceber – apesar das diferenças de raízes que dão um óbvio sabor local a cada um dos géneros referidos a seguir – que tem parentescos com o Gqom sul-africano (este uma versão mais moderna do kwaito, o baile funk carioca, o afro-house e muito do rap que se faz em África, o reggaeton transversal a toda a América Latina de língua espanhola, o grime e o drum'n'bass originais das comunidades imigrantes de Londres, o norte-americano Miami Bass ou o dancehall da Jamaica, a electro-cumbia da Colômbia e o zouk das Antilhas (irmão mais velho da kizomba, via zouk love, a sua versão mais lenta). A mesma kizomba que por sua vez encontra o kuduro nos sub-géneros mais sensuais da tarrachinha e da quadradinha (estas, electrónicos como o kuduro mas mais quentes, lentas e sensuais como a kizomba). Não é, portanto, de estranhar que este "um quarto dos Buraka Som Sistema" conhecido como Riot ou DJ Riot (Rui Pedro Soares Da Silva Pité) é um músico e produtor português, de raízes indianas e moçambicanas, crie e passe nos seus sets de DJ muitos destes géneros musicais que formam a grande família da "nova música negra dos subúrbios das grandes cidades, sejam os antigos e actuais bairros de lata dos arredores de Lisboa (a norte e a sul do Tejo), das favelas do Rio de Janeiro e de São Paulo, dos musseques de Luanda ou das townships de Joanesburgo, Durban ou Cidade do Cabo.

Os Buraka Som Sistema, é mais que sabido, foi a maior exportação da música portuguesa, ao lado de Mariza, depois dos Madredeus e, mais longinquamente, de Amália Rodrigues. E um exemplo maior, entre todos os outros, do cadinho multi-cultural e multi-étnico da música que hoje é craiada em Lisboa: para além das origens de Riot, nos Buraka - que puseram em pausa a sua carreira em 2016 - conviviam o português Branko (sim, o seu nome artístico é um finíssimo ensaio sobre a ironia), o angolano Kalaf, Conductor (filho de pai angolano e mãe cubana) e Blaya, portuguesa nascida no Brasil. A própria Mariza, referida há pouco, é neste momento a maior embaixadora do fado - a canção da cidade de Lisboa que, também ela, tem raízes profundas em músicas africanas e brasileiras como a fôfa ou o lundum - e tem sangue luso-moçambicano. E o legado dos Buraka Som Sistema é único e preciosíssimo! Os seus lendários concertos e os discos "From Buraka to the World" (2006), "Sound of Kuduro" (EP, 2008), "Black Diamond" (2008), "Komba" (2011) e "Buraka" (2014) já pertencem, por direito próprio, à História da melhor música produzida durante as primeiras duas décadas do Séc. XXI (e esperemos que um dia, com o seu regresso, das que aí vêm também).

Nas suas sessões como DJ, Riot faz, por isso "uma viagem sem limites, pensada para um vasto público com diferentes gostos musicais". E baseia a música que passa em remisturas, bootlegs exclusivos feitos pelo próprio e até alguns originais que vão desde versões de Buraka, de Carlão, Slow J, MGDRV (projecto do seu irmão Pité), entre muitos outros. E, depois de ter feito parte igualmente dos projectos 1-Uik Project (que já antes reunia os fundadores dos BSS), Cool Train Crew e Fusionlab, editou a solo os EPs "Originator" e "Zouk Weapons"(ambos em 2014) e, no último ano e meio lançou três novos singles em nome pessoal: "Aonadê" (que tem como convidado o seu irmão Pité), "Ninguém te Tem na Mão" (com a cantora Ella Nor), e "Follow" (com os mestres do dancehall nacional Supa Squad). Absolutamente ecléctico, e a juntar aos variadíssimos de géneros que visita nos seus sets, com os Deolinda colaborou na criação de um tema surpreendente, "A Velha e o DJ", E já fez remisturas para temas dos próprios Buraka - EP "Sound of Kuduro Remix" -, mas também dos Taxi (para a lendária "Chiclete"), Photek, Cause 4 Concern ou Sam The Kid. Em 2015, assina uma colaboração com Mikal ("Control Of People) no single deste, "Where They At" (em que também participa Nymfo). E participou ainda em discos de Baloji - o congolês que deu um grandíssimo concerto no nosso festival em 2015 -, Sr. Alfaiate, M.I.A. e PAUS. E todos nós temos a ceretza absoluta de que vamos cair para o lado depois de mais uma das suas triunfais noites de música.










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