ENEIDA MARTA

Palco: Chafariz Map
29 Junho, 20:00

Enquanto prepara o lançamento para breve de um novo álbum – do qual até já há um teaser do primeiro single, “Homis Di Gossi” – Eneida Marta vem cantar ao Med de Loulé ainda com um magnífico disco, “Nha Sunhu”, editado em 2015 bem fresco na nossa memória. Um álbum que foi mais um marco da fulgurante carreira da voz feminina mais importante das últimas décadas da Guiné-Bissau, produzido pela própria cantora – o seu sonho que dá nome à obra – e com valiosas colaborações do guitarrista e cantor Manecas Costa e de outros guineenses como o baixista Gogui, o grupo de percussões tradicionais Netos de Bandim ou o inevitável Ibrahima Galissa, na kora, para além de músicos de outras nacionalidades. E, ainda, um tributo quer às músicas de raiz mais tradicional da sua Guiné quer a alguns dos maiores compositores e reinventores da música desse país: José Carlos Schwarz – o pai de Remna Schwarz que, à distância de mais de um ano, foi já anunciado como a primeira contratação do Med 2020 -, Ernesto Dabo e o fundador dos Super Mama Djombo, Zé Manel Fortes. São de Eneida (um) e deles (os outros) os temas de mais este disco fundamental da nova música guineense.
Cantando em português, crioulo da Guiné-Bissau, fula, biafada, badjara, manjaco e mancanha – e até em línguas nacionais de Angola como o quimbundo e outras -, é uma mulher profundamente muçulmana, livre e corajosa que nunca deixa de cantar o amor à sua terra (e dela pelos outros) mas também as agruras do seu povo – martirizado por tantas guerras, da Guerra Colonial que opôs a pátria de Amílcar Cabral à do Portugal colonizador às sucessivas guerras civis que se lhe seguiram – e apelar à libertação da mulher do domínio masculino (casamentos forçados, violência doméstica, mutilação genital feminina…). Com um primeiro álbum editado em 2001, “Nô Storia”, o segundo, “Amari”, surgiria logo no ano seguinte e o terceiro, “Lôpe Kaï”, em 2006. E entre várias digressões que levaram o seu gumbé (por vezes também chamado n’gumbé) natal com originais laivos de jazz e de músicas do país irmão Cabo Verde a muitos palcos do mundo (incluindo a participação na prestigiadíssima Womex) e, discograficamente, a editoras de enorme prestígio como a Putumayo. Em 2011 grava o disco mais “desviante” da sua carreira, cantando muitos cássicos da música angolana (de Teta Lando, Os Kiezos…) que ouvia em criança na rádio guineense em “Eneida Marta com Angola na Voz” e, em 2015, regressa à música mais próxima da raiz do seu país com “Nha Sunhu”.
E é ainda mais importante que se escute a sua voz – repete-se, a voz feminina mais importante e emblemática deste país – porque esta mulher nascida em Bissau estava a Guiné ex-portuguesa a conseguir a sua independência, é uma das pontas-de-lança de uma música que mesmo nós, portugueses, por vezes desconhecemos. Ao contrário do que se passa com a música de outros países de língua oficial portuguesa como o Brasil, Cabo Verde, Angola e até Moçambique, a música da Guiné-Bissau pssa muitas vezes despercebida no nosso país. O que é um enorme erro! A Guiné-Bissau – à semelhança de outros países que constituíram em tempos o enorme (e riquíssimo!) Império mandinga tem belíssimos géneros tradicionais específicos e locais como o gumbé, kussundé, tina e tinga e enormes músicos e/ou cantores que difundiram estes ritmos e/ou os transformaram, dos seminais José Carlos Schwarz, Cobiana Djazz, Super Mama Djombo, N’Kassa Cobra ou Super Camarimba, Issabary aos mais recentes Juca Delgado (o primeiro produtor de Eneida Marta), Manecas Costa, Remna Schwarz, Karyna Gomes, Guto Pires, Braima Galissá, Maio Coopé (Djumbai Djazz), Kimi Djabaté e, claro, Eneida Marta, a (também) embaixadora da UNICEF para a Guiné-Bissau. Respeito!










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