FRANCISCO, EL HOMBRE

Palco: Matriz Map
28 Junho, 22:30

Triste, louca ou má / Será qualificada / Ela quem recusar / Seguir receita tal / A receita cultural / Do marido, da família
Cuida, cuida da rotina / Só mesmo, rejeita / Bem conhecida receita Quem não sem, dores / Aceita que tudo deve mudar

Que um homem não te define / Sua casa não te define / Sua carne não te define / Você é seu próprio lar
(bis)

Ela desatinou / Desatou nós / Vai viver só
(bis)

Eu não me vejo na palavra / Fêmea: Alvo de caça /Conformada vítima / Prefiro queimar o mapa / Traçar de novo a estrada / Ver cores nas cinzas / E a vida reinventar

E um homem não me define / Minha casa não me define / Minha carne não me define / Eu sou meu próprio lar
(bis)

Ela desatinou (e um homem não me define) / Desatou nós (minha casa não me define) / Vai viver só (minha carne não me define) / Eu estou meu próprio lar
(bis)
O poema que podemos ler em cima pertence à canção “Triste, Louca ou Má”, dos Francisco, El Hombre, e já entrou para o rol das melhores canções brasileiras que, seja do ponto de vista feminino seja do ponto de vista masculino, já exaltaram, celebraram, emponderaram ou retrataram a vida das mulheres brasileiras, sejam brancas ou tantas vezes negras: desde a seminal “Mãe Preta” (de Piratini e Caco Velho, que Amália Rodrigues - com David Mourão-Ferreira a dar-lhe outra letra – transformou em “Barco Negro”) até “Madalena” (Elis Regina), “Olhos nos Olhos” (Maria Bethânia), “Devolva-me” (Adriana Calcanhotto), “Encontro” (Maria Gadú), “Pagú” (Rita Lee com Zélia Duncan), “Pedaço de Mim” (Zizi Possi), “A Mulher do Fim do Mundo” e “A Mulher de Vila Matilde” (Elza Soares), “Olhos Coloridos” (Sandra de Sá), “100% Feminista” (Karol Conka e MC Carol), “Mulheres Negras” (Yzalú), “Respeite a minha pele” (Marvyn), “Sorriso Negro” (Dona Ivone Lara), “Preta” (Rivais Mc's), “Baiana” (Emicida), “Pretinha” (Seu Jorge) e, tantas tantas outras canções. Mulheres sofridas mas belas e poderosas todas elas, abençoadas sejam as que ainda vivem ou as que já partiram.
O tema foi editado no álbum de estreia do grupo, "Soltasbruxa" (2016), sendo "Triste, Louca ou Má" (com Juliana Strassacapa, a cantora do grupo, a ser acompanhada por mais quatro mulheres: Salma Jô, Helena Macedo, Larissa Baq e Renata Éssis) a faixa número 6 do disco. Usada na banda-sonora de uma telenovela de sucesso, a canção foi – mais que justamente – nomeada na categoria de Melhor Canção em Português nos Grammys Latinos. Mas esse não é o primeiríssimo disco da banda. Os Francisco, El Hombre – que muitas vezes preferem ser designados em minúsculas (francisco, el hombre) - editaram antes os EPs “Nudez” (2013) e “La Pachanga” (2015), que lançava já uma enorme luz sobre aquilo que viria a ser o futuro do grupo: uma belíssima e extremamente original mistura de música brasileira e mexicana cantada em português e espanhol - dois deles nasceram no México e os outros três são brasileiros - com outras músicas da América Latina mas ainda a folk, o rock, umas pitadas de electrónicas e tudo o que possa ajudar aquilo a que alguém já chamou o encontro de Manu Chao com os Nação Zumbi (a banda do saudoso Chico Science).
Constituídos pelos irmãos Sebastián (bateria e voz) e Mateo Piracés-Ugarte (guitarra acústica e voz), Juliana Strassacapa (voz), Andrei Kozyreff (guitarra eléctrica) e Rafael Gomes (baixo), os Francisco, El Hombre editaram, depois de “Soltasbruxa” – onde contavam ainda com as colaborações de Liniker e os Caramelows, Rodrigo Qowasi e Apanhador Só, para além das quatro cantoras já referidas – o EP “Francisca, La Braza” (uma parceria com a banda Braza) e, fresquinho fresquinho, o segundo álbum, “Rasgacabeza”, há apenas três meses, em Março deste ano.
Caracterizado como "um álbum de ritmo acelerado, que não poupa críticas” onde “a ideia é o combustível, o momento é a faísca e a atitude é o fogo”, nele participam Capilé e DBL. Mais marcadamente político, lançando pontes ao punk interventivo de The Clash (Nota: não por acaso também a banda preferida do já referido Manu Chao, cuja primeira banda Manu Negra era o reflexo francês do grupo londrino), celebrando tanto o Dia dos Mortos mexicano como a oposição clara a Bolsonaro, a música dos Francisco, El Hombre chega até nós já num grau de amadurecimento, coerência e qualidade inacreditáveis. “Somos as fronteiras que cruzei”, dizem eles. E nós todos também.










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