Marinah

Palco: Matriz Map
29 Junho, 22:30

Quando, no início deste século, os Ojos de Brujo se deram a conhecer ao circuito da world music na WOMEX de 2003 que decorria em Sevilha, Espanha, três coisas muito diversas aconteceram num de dois espaços diferentes. No majestoso, belíssimo e vagamente mourisco (há lá um crescente a encimar a cúpula) Palácio de Congressos e Exposições da capital andaluza conviviam, num enorme pavilhão, muitas das culturas, etnias e géneros musicais de todo o mundo – e nele, no meio de stands e mesas atafulhadas de panfletos e (ainda muitos, mesmo muitos!) CDs a circularem de mão em mão, havia uma profusão infinda de modos de trajar e de estar em que a música a todos unia. Isto era a WOMEX. Mas o espaço nobre do Palácio, isto é, todos os outros e imensos recantos, decorria a Feira do Flamenco, uma Mostra pensada até ao último pormenor, onde deslumbrantes gitanas amazonas recebiam a cavalo (igualmente deslumbrantes) os visitantes e convidados de honra, desde altos dignatários do governo regional e nacional a grandes figuras do cante jondo.
Os Ojos de Brujo, grupo formado em Barcelona, subiu ao palco no auditório da Feira do Flamenco. E foi aí que se sentiram, e desde logo o início do concerto, essas reacções díspares, apesar de duas delas até serem coincidentes, à sua música: o público estrangeiro (a malta da WOMEX e um ou outro turista mais curioso) ficou estupefacto com a actuação desta banda, que tinha como frontwoman Marina “La Canillas”, e com a sua fusão única e orgânica, bela e selvagem, interventiva e rebelde, visceral e dir-se-ia natural de flamenco (e não só apesar de também, a rumba, um dos palos do flamenco e que leva o nome do seu país: a rumba catalã) com rap, electrónicas, reggae, funk, música afro-latina e (com umas tablas sabiamente metidas lá pelo meio) indiana – afinal, não vieram os ciganos originalmente do Rajastão, no sub-continente indiano?
Invenção remota e colectiva de ciganos, árabes e judeus que fugiam da Inquisição há cerca de 500 anos, o flamenco é agora, tal como fado, uma linguagem que tem inúmeras regras internas: os seus palos correspondem, se não em termos de construção melódica ou harmónica pelo menos nas convenções internas fixas que têm, aos nossos duzentos fados tradicionais; e também há normas rígidas para quem canta, quem toca, quem baila…
Não é aqui lugar para uma aula de flamenco mas, para resumir e voltar à tal questão das reacções díspares aos Ojos de Brujo em Sevilha, 2003: os puristas do flamenco detestaram-nos (se calhar os mesmos que já antes teriam detestado Martirio, Ketama, Pata Negra ou Radio Tarifa. Mas houve muitos outros andaluzes (e de outras zonas de Espanha) que logo ali lhes prestaram vassalagem absoluta. E isso por uma razão muito simples: ao contrário de outros grupos e artistas, os Ojos de Brujo – apesar de usarem muitos outros géneros na sua música seguiam as estruturas métricas, os compassos e muitas outras características vindas da mais profunda tradição. Ah!, e alguém tem mais duende dentro dela do que Marina(h)?
Este “agá” surge agora, entre parêntesis e antes de um ponto de interrogação porque é dela que se fala quando se fala dos Ojos de Brujo: Marina “La Canillas”, agora conhecida como simplesmente… Marinah, a mesma que esteve com os Ojos de Brujo no Med de Loulé em 2009 e agora regressa a casa. A mesma que continua a transportar o legado, a bandeira e a arte dos Ojos de Brujo. Nascidos no mesmo cadinho efervescente que também deu origem (apesar de nem todos serem de Barcelona) aos Amparanoia, Macaco, Che Sudaka, La Pegatina, Muchachito Bombo Infierno, Dusminguet, La Troba Kung-Fú e até mesmo Manu Chao (depois dos Mano Negra e no início do seu percurso a solo), os Ojos de Brujo tiveram uma carreira marcante e inesquecível, a nível interno e externo, e deixaram acesa uma enorme chama musical.
Uma chama bem viva de que Marina Abad, Marina “La Canillas” ou Marinah se orgulha de ter feito parte da fogueira original. Tanto que, assumindo abertamente o legado do seu anterior grupo, na discografia oficial do seu site constam os históricos discos dos Ojos de Brujo "Barí" (2002), "Techari" (2006), "Aocaná" (2009) e "Corriente Vital" (2011), para além de discos de remisturas ou "ao vivo" decorrentes desses álbuns. Assim como, claro!, como o seu álbum de estreia a solo "El Baile de las Horas" (onde contava com a ajuda de gente como o Gotan Project e os Orishas; 2013) e "Afrolailo" (em que é acompanhada por vários dos seus velhos companheiros nos Ojos de Brujo ou pela nossa bem conhecida e amada La Mari, de Chambao; saído em 2017). E, ainda, "Sintonías" (2015), em dupla com Chicuelo.
Nascida em Valência, Marinah sempre cresceu e foi crescendo rodeada de música (do punk à música latino-americana ou às lendas da rumba catalã como Peret). E o longo da sua carreira já cantou com esta lenda, Peret, assim como com Martirio, Pepe Habichuela, Belén Maya, Asian Dub Foundation, Daara J, Nitin Sawhney, Los Van Van, Orishas, Miguel Campello, Bebe, Manolo García, Muchachito, Vinicio Capossela… e tantos outros. Para além de, na sua vertente tão ou mais interventiva, ter integrado e integrar as Queenky Potras (ao lado de Amparo Sanchez, dos Amparanoia, e Suzanna) e o Mi Baile Es Mío. Agora, ela vem cantar connosco.









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