MELECH MECHAYA

Palco: Castelo Map
29 Junho, 01:00

Há instrumentos que são adoptados e acarinhados por músicos – e fãs de música – de países que ficam distantes de onde nasceram: o bouzouki grego é desde há muito presença constante na música tradicional escocesa e irlandesa. O cajón peruano foi, desde que Paco de Lucía fez uma digressão pela América Latina, parte integrante dos combos de flamenco. O cavaquinho português tornou-se no símbolo nacional e marca identitária de um povo que vive do outro lado do mundo, os havainos que lhe chamaram ukulele. E até a nosso guitarra portuguesa parece descender directamente da guitarra inglesa, por nós importada no início do Séc. XIX e que os ingleses esqueceram. E há géneros musicais – e nem sequer estamos a falar aqui de rock, pop, jazz ou hip-hop… - que saltam fronteiras e que ficam famosos ou são tomados como seus por povos distantes da sua região de origem: a bossa-nova é grande no Japão, a rumba formatou quase toda a música do Congo, a Polónia assumiu o tango como o género também próprio, etc…
E, por haver uma banda portuguesa que faz algum do melhor klezmer do mundo chamada Melech Mechaya, se calhar já era tempo de haver um klezmer lusitano – e, quanto mais não seja, porque Portugal tem uma dívida antiga para pagar aos judeus (ver manuais de História, por favor) – mais amplamente estabelecido. Sim, há outros artistas nacionais a visitar este género nascido no seio das comunidades de judeus asquenazes do centro e norte da Europa algures no Séc. XIX – e inicialmente conhecido como iídiche, também o nome da língua em que falam) – como a Kumpania Algazarra, Ósmavati, Fanfarra Kustica, Clarinetes Ad Libitum ou Orquestrinha do Terror, mas isso se calhar ainda não chega para formar um movimento.
Movimento, isso sim, é o que se pode esperar deste estilo musical originalmente criado para fazer dançar – em roda ou em pares – homens e mulheres nas festas judaicas, de casamentos ao Bar Mitzvá (que, ao contrário do se possa pensar, não é um sítio para beber copos mas sim a cerimónia que marca a entrda ana maturidade dos adolescentes judeus). Tragicamente quase desaparecido no norte da Europa aquando da Segunda Guerra Mundial, a música klezmer viria a sobreviver – e em variadíssimas formas – no seio das comunidades judaicas imigradas nos Estados Unidos ao longo do Séc. XX. Uma ópera como “Porgy and Bess”, de George Gershwin, deve tanto ao klezmer como à grande música negra norte-americana (gospel, blues, jazz) e à sua formação erudita de base. Os filmes de Woody Allen estão cheios de klezmer. O free-jazz arraçado de punk de John Zorn continua a dever muito do que é ao klezmer. E, claro, The Klezmaticas são norte-americanos e não por acaso os maiores embaixadores do klezmer no mundo.
Regressando aos Melech Mechaya, e para resumir aqui a sua História de (já mais) dez anos de concertos e de discos, o quinteto foi formado em 2006 por Miguel Veríssimo no clarinete, saltério, pandeireta e voz), João da Graça no violino, André Santos na guitarra clássica, concertina, laptop e guitarra eléctrica, João Novais no contrabaixo e voz e Francisco Caiado – que recentemente foi substituído por Pedro Luís nas percussões (e guitarras). Tendo o klezmer como base, os Melech Mechaya misturam-no – e com imensa sabedoria, arte e inventividade – com muitos outros géneros musicais - fado, flamenco, música balcânica, jazz manouche, música turca e árabe, rebetika, indie-rock, ska, valsa e um sem-número de outros estilos. E, ao longo da sua carreira discográfica – “Melech Mechaya (EP)” (2008), “Budja Ba” (2009), “Aqui Em Baixo Tudo É Simples” (2011), “Gente Estranha” (2014) e “Aurora (2017 ) - e nas suas várias digressões nacionais e internacionais, já tiveram com eles na composição, na voz ou nos seus respectivos instrumentos nomes tão diversos como Frank London (The Klezmatics), Mísia, Jazzafari, Amélia Muge, Tucanas, Pedro da Silva Martins (Deolinda) ou, novo álbum, Lamari (Chambao), o pianista Filipe Melo e Noiserv.
Acerca de um recente concerto no Teatro Tivoli, em Lisboa, o jornalista António Pires escreveu n’O Fado & Outras Músicas do Mundo: “Há muitos anos, os Sex Pistols diziam numa entrevista: ‘We’re just a bunch of kids and we will never grow up’. Deles todos, só Sid Vicious cumpriu a palavra, de forma trágica. Os outros mentiram. Mas quem parece seguir mesmo à letra essa frase são os Melech Mechaya, a banda portuguesa de klezmer e outras músicas do mundo – e sim, olarecas, isto também inclui o punk, o ska, o free-jazz e até o prog-rock – que, ao fim de dez anos de existência, continua a ter a mesma alegria, a mesma loucura, o mesmo prazer na festa, o mesmo sentido de humor daquele bando de putos (do seu início)”. E, não temos dúvidas, assim vai ser também no Med de Loulé.









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