MORGANE JI

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29 Junho, 23:30

A ilha da Reunião é um território ultramarino francês situado no Oceano Índico, entre a ilha vizinha – e bem maior – de Madagáscar e a Índia. Povoada desde o Séc. XVII, quando os conquistadores franceses começaram a usar a ilha como entreposto para o comércio da sua Companhia das Índias e usando maioritariamente mão de obra escrava oriunda de África nas roças de cana de açúcar. Mas a população da Reunião também seria decisivamente marcada por um outro contributo demográfico: a chegada de muitos indianos da região de Tamil Nadu – e alguns chineses - para lá trabalharem depois da abolição da escravatura, em 1848. A junção de franceses, africanos e indianos viriam a criar condições para a criação de uma língua própria, o crioulo da Reunião – que se diferencia de inúmeros outros crioulos (há cerca de oitenta línguas com estas características híbridas bem identificadas) pela sua mistura de francês – a sua base lexical - com o malgaxe (de Madagáscar), o tâmil (falado no sul da Índia e no Sri Lanka, entre outros países), alguns dialectos da África Oriental e até os vários crioulos indo-portugueses falados no sub-continente indiano.
Tudo isto é importante para se perceber como é a música de uma cantora, instrumentista, compositora e letrista como Morgane Ji, originária da Reunião apesar de há muitos anos residir em França (a sua mãe adoptiva é da Bretanha). Assim como é importante referir esta História para se compreender como esta pequena ilha plantada no meio do Oceano Índico gerou também um género musical próprio e que, tal como o seu crioulo – falado por quase toda a população apesar da língua oficial ser sempre o francês -, se faz da mistura de muitas influências. As influências que os seus criadores ali preservam mas carregam consigo de outros lugares, como se, e tal como acontece em tantos outros estilos musicais, uma memória cultural genética se mantivesse de alguma maneira conservada. Essa música é a maloya – que a própria Morgane celebra numa das canções incluídas no álbum “Idiomes” (que significa exactamente “línguas”, “idiomas”…). Um género musical que tem laços de parentesco com o séga das Ilhas Maurícias, também bastante popular na Reunião, e da qual cantores como o pioneiro Firmin Viry (em 1959), o seu discípulo Danyèl Waro ou Nathalie Natiembé são os seus embaixadores mais conhecidos.
Uma música nascida no seio das comunidades de escravos africanos e trabalhadores forçados indianos e considerada maldita durante muitas décadas – são cantos de intervenção, que recordam a escravatura e a pobreza e apelam muitas vezes a uma maior autonomia ou até à independência da ilha -, tendo sido a sua expressão pública apenas permitida pelo governo francês já na década de 70 do Séc. XX. Na sua origem, as canções maloya são de chamada e resposta e para acompanhar usam-se apenas instrumentos de percussão e um berimbau (bob). Mas, nas últimas décadas, a maloya tem-se cruzado com inúmeros outros géneros como o rock, o jazz ou o hip-hop. A propósito destas experiêcias de fusão de um género local com músicas estrangeiras, e numa recente entrevista com o jornalista Gonçalo Frota (Público), a já referida Nathalie Natiembé dizia sobre essa evolução: “Afirmo muitas vezes a música maloya como um espaço de liberdade. Por isso devo poder tomar os caminhos que quiser. Sou livre. Talvez não respeite os códigos, mas paciência”.
É também enformada por esta realidade histórica, política e social – assim como pelo gosto na quebra de barreiras estilísticas e culturais - que a consciência musical de Morgane Ji cresceu e ainda hoje se reflecte nos seus concertos e discos. Estabelecida em França, Morgane Ji fez parte ou colaborou com grupos folk da Bretanha como os Jamao – com quem gravou o álbum “Noah’s Boat” em 2001 e que pode também ser considerado como um seu álbum a solo -, Wig a Wag ou Karma, tendo iniciado a sua carreira em nome próprio com o single “Ma”, em 2003. Ainda na primeira década do Séc. XXI editou os álbuns “In.Organic” (2007) e “Idiomes” (2009), tendo agora regressado aos discos com o álbum “Woman Soldier”. Dotada de uma voz absolutamente extraordinária (já a definiram como “selvagem”, “xamânica”, “animal”, “guerreira” e “sensual”) e tocando banjo, Morgane Ji é geralmente acompanhada por uma banda - E.r.k. (seu companheiro desde os Jamao) nas guitarras e máquinas, Laurent Sureau nas teclas e handpan, Olivier Carole no baixo e Morgan Cornebert na bateria – que facilmente cruza as sonoridades antigas da música maloya com o rock e as electrónicas. Cantando em crioulo, francês e inglês, Morgane Ji prepara-se para encantar o Med de Loulé com a sua música, profundamente pessoal e universal, ao mesmo tempo marcadamente identitária da ilha de onde é originária e absolutamente global.









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