OS TUBARÕES

Palco: Matriz Map
27 Junho, 22:30

Num mundo hiper-globalizado em que todas as gentes de todos os lugares parecem estar conectadas por um fio invisível que tudo une, mas também tudo prende numa mesma teia, quem ainda quererá descobrir as músicas mais “puras”, mais fiéis às raízes, mais próximas de uma ancestralidade muito antiga e original, só tem uma hipótese, mesmo: tentar descobrir a música dos pigmeus escondidos nos confins da selva centro-africana ou dos, até então, membros de um grupo de índios da Amazónia recém-achados por uma aeronave. Mas todos eles, esses mais isolados ou outros que desde há muito convivem – à força – com povos exteriores, maioritariamente brancos e de origem europeia mas não só, conservam um grau de fidelidade à tradição bem maior do que a de todos os povos de outras regiões do globo. Características, modos e jeitos musicais que os unem entre si, dentro do grupo, e a todos eles por muito distantes que estejam geograficamente uns dos outros.
A música dos sámis (lapões) da Escandinávia está próxima da dos índios norte-americanos. Há ritmos e melodias de flautas ou de voz – a música da preparação para a guerra dos rapazes ou as canções dos rituais de iniciação feminina – que são comuns a muitos deles. Há bordões sonoramente semelhantes em vozes humanas - os cantos guturais de Tuva, da Mongólia e dos inuit (esquimós) da América do Norte -, nos didgeridoos dos aborígenes australianos e nas trompas rituais budistas do Tibete (e como estas são tão parecidas com as dos pastores das altas montanhas alpinas da Europa!). Ouvindo-se, ainda hoje, esses sons tendemos a acreditar que já soariam assim há cem, há mil ou há ainda mais anos. Mas mesmo essa não está, desde há muito tempo, imune à contaminação de géneros musicais exteriores e que lhes foram levados pelos seus, estrangeiros, colonizadores. Criando-se assim uma música híbrida, misturada, mestiça… Só para dar alguns exemplos, entre milhares de outros possíveis, na Austrália há os Yothu Yindi (música tradicional aborígene e rock), em Tuva há os Yat-Kha (canto gutural típico desta região da Sibéria com punk), do Tibete vem-nos Yungchen Lhamo e da Noruega Mari Boine (canto tibetano e sámi, respectivamente, com electrónicas) e, do povo inuit, Tanya Tagaq (cantares esquimós com experimentalismo). Ou, ironia final: um dos maiores cantores de música country (aquela com a qual os vaqueiros, ou caubóis, mais se identificam) desde há muitas décadas é Willie Nelson… um índio norte-americano.
Se, entretanto, continuarmos a fazer uma viagem pelos eventuais lugares do Mundo onde – numa segunda etapa, mais assumidamente misturada embora com possibilidades de mais rápido reconhecimento das origens de cada género consoante os povos e as circunstâncias que o enformaram – ainda se conservam muitos traços genuínos, antigos e reveladores de quais foram as suas raízes (e mesmo que os frutos que aí tenham origem sejam já produto de enxerto ou manipulação) temos que dar atenção às ilhas do Atlântico Sul, do Índico e do Pacífico. Porque, pela sua condição insular, ilhoa (Nota: sim, é o feminino de ilhéu) aí se criam condições, podemos dizer que de estufa, únicas para uma evolução de uma música própria, estruturada, feita à medida dos seus habitantes… e sejam quais forem os géneros que lá nasçam.
As ilhas de Cabo Verde são um desses – e dos maiores! – casos em que uma belíssima música própria, que é feita de muitas músicas, teve oportunidade para nascer e desenvolver-se nas mais variadas direcções. Achadas as primeiras ilhas por volta de 1460, os portugueses rapidamente começaram a povoá-las com a promessa de uma boa posição no próspero, e sangrento, negócio da escravatura. E os primeiros escravos negros não demoraram a chegar, oriundos de várias regiões do Golfo da Guiné e um pouco mais além. Mas, se em termos hierárquicos, este povo europeu – o nosso, para o bem e para o mal – esteve no poder até 1975, ano da independência de Cabo Verde, na música quem mais e sempre mandou foram os cabo-verdianos negros. Formas musicais africanas como o batuque – ou batuco -, o kolá, a tabanka, o finaçon, a reza – evoluíram lado a lado com formas híbridas europeias – a chótice, a mazurka, a valsa, a polka… -, brasileiras – samba, choro – e afro-sul-americanas – o lundum – o mesmo que existe também no Brasil, no Peru ou nos Açores e que parece estar também na origem do fado. O mesmo fado (Eugénio Tavares tocava guitarra portuguesa; B.Leza compôs fados-mornas durante a sua estada em Lisboa) que, juntamente com a milonga e o choro, poderá ter ajudado a moldar a morna, não deixando esta de ter traços que a ligam indelevelmente à música dos griots mandingas e, destes, aos blues. Músicas assumidamente híbridas e já muito misturadas viriam a ser as coladeiras, o funaná ou, mais recentemente, a kizomba (uma mescla de love-zouk das Antilhas com ritmos locais e angolanos). E, no meio de tudo isto, ainda restam mistérios: não terá o batuque um fio invisível, talvez chamado gnawa (a música dos descendentes dos escravos negros da África Ocidental em Marrocos), a uni-lo aos polirritmos dos adufes da Beira Baixa?
Um salto para a actualidade (por muito antiga que até já seja): Os Tubarões – que vêm actuar este ano pela primeira vez no Med de Loulé – são um dos mais icónicos, importantes, politicamente relevantes e esteticamente revolucionários que Cabo Verde jamais teve! Nascidos em 1969, ainda debaixo de um regime opressor que não os deixava levantar a voz (nem o braço!) contra o colonialismo, a ditadura de Salazar e a guerra que, apesar de não os afectar directamente, estava mesmo ali ao lado na então Guiné portuguesa (agora Guiné-Bissau) e, um pouco mais longe, em Angola e Moçambique. Uma guerra que os próprios Os Tubarões referiram muitas vezes, nomeadamente no histórico “Djonsinho Cabral” (o mesmo que Dino d’Santiago também irá aqui celebrar, dedicado à memória de Amílcar Cabral, primeiro líder do PAIGC. E, impedidos de intervir, Os Tubarões – um colectivo que, à semelhança de muitos outros grupos africanos da altura, descobriu como conseguir fazer uma música fiel às suas raízes com instrumentos estrangeiros (bateria, saxofone, guitarras eléctricas, teclados…) que mantinham a alma e a essência de tantos (todos?) os géneros das suas ilhas.
Com vários álbuns, e todos eles históricos, editados a partir de 1975 – ano da independência – Os Tubarões viriam a ter bastante sucesso no seu país e junto da imensa diáspora do seu povo, mas também de públicos estrangeiros: na passagem dos anos 70 para os 80, eram hits em programas de rádio portugueses (“Trópico de Dança”, de Miguel Esteves Cardoso, David Ferreira e João David Nunes), davam inúmeros concertos por cá e até conseguiam que fãs deprimidos dos Joy Division dançassem, pela primeira vez na sua vida, ao ouvi-los. Depois, subitamente, em 1994 desapareceram. Ildo Lobo, o carismático vocalista, continuou a solo acompanhado por alguns dos ex-companheiros e era muito bom, mas já não era a mesma coisa. E, com a sua morte em 2004, um imenso vazio ficou em quem deles tinha saudades – apesar de tantos e tão bons artistas e grupos cabo-verdianos terem emergido entretanto. Agora, e desde 2015, temo-los de novo connosco, com um novo cantor -Albertino Évora - e com a melhor música (do mundo) de sempre!










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