RICARDO RIBEIRO

Palco: Castelo Map
29 Junho, 23:00

Quando, por volta de 1940, Amália Rodrigues começou a cantar em casas de fado e a arrasar tudo à sua volta como um furacão de talento, inteligência, abertura de espírito, qualidade inultrapassável da voz e, principalmente, com a novidade de ter introduzido no fado – e para nunca mais o largar -, sendo agora uma característica comum a (quase) todos os fadistas: aquelas “voltinhas”, “floreados”, “rodriguinhos” ou mais propriamente “arabescos”, que ela aprendeu desde pequena através dos cantares da mãe, das tias, das avós do Fundão. Uma zona em que, tal como noutros concelhos da Beira Baixa (Penamacor, Idanha-a-Nova, etc), se mantém bem viva a tradição do canto melismático, principalmente presente nos cantares femininos, que nos ficou dos árabes que povoaram o Al-Andalus durante muitos séculos. E quer em cantigas de trabalho (“Por Riba se Ceifa o Pão”…), quer em cantigas religiosas “Senhora do Almortão”, “Senhora da Póvoa”…) e noutras sub-casas da tradição beirã. Não por acaso, Amália tinha duas cantoras da sua preferência: a cantora grega Maria Callas, esta do lado da ópera, e a cantora egípcia Oum Kaltum, cujo domínio dos melismas fazia com que cada uma de muitas das suas canções durasse uma hora; e esta do lado da música popular… árabe.
Pioneiro de outro encontro foi, nos anos 70, Janita Salomé, que fez a ponte entre a música alentejana e a música árabe, continuando a fazê-la a solo, na Lua Extravagante ou nos Al-Mu’Tamid (que juntava músicos portugueses, espanhóis e marroquinos). Mas Janita não está só: Rosa Negra, os algarvios Al-Mouraria e Eduardo Ramos, os recentes Belo Manto (a cantora Sofia Vitória e o guitarrista José Peixoto, que já em vários outros projectos anteriores e a solo tinha feito as mesmas viagens), os Al-Zajal, o grupo Aduf de José Salgueiro, Katia Guerreiro em dueto com a cantora marroquina Amina Alaoui, a guitarrista Luísa Amaro…
Mas desta vez vamos ouvir outra grande aventura: a da voz de Ricardo Ribeiro, fadista de condição que também ele há muito encontrou o fio que liga os fados às músicas árabes, turcas, persas, paquistanesas, libanesas. E, principalmente às de raiz sufi – um ramo do islamismo que se encontra no lado oposto aos extremismos – como o o zajal (Líbano), o qawalli (Paquistão), o gnawa (Marrocos), o ayin (Turquia) ou o radif (Irão, ex-Pérsia).
Fadista desde tenra idade, Ricardo Alexandre Paulo Ribeiro (nascido em 1981 na cidade de Lisboa) cedo começou também a trabalhar para ajudar a família. Durante os anos de adolescência acumulou a profissão de pastor – todos os dias apanhava o barco para ir tomar conta do seu rebanho na margem Sul – à aprendizagem do fado com alguns dos melhores mestres desta canção urbana. E, talvez por isso, juntou aos ensinamentos directos de Fernando Maurício, o seu maior e mais exigente professor, um outro saber indirecto: o dos espaços que, apesar se suburbanos, ainda conservavam o ar livre, pássaros e ovelhas. E um Sol que apontava para Sul… E para o Oriente. Desde cedo, ao fado juntou outros gostos: a música alentejana (toda ela árabe e sefardita, com a Escola de Évora de canto gregoriano a espreitar pelo meio), o flamenco que os ciganos conservam – e que Amália tanto amava e tanto cantava desde quase sempre, chegando ao ponto de dizer que gostaria de ser cigana (ah, e como durante tanto tempo a Europa achou que os ciganos tinham vindo do Egipto!) - mas que na sua génese é também árabe, judia e pan-africana e as músicas orientais.
O seu percurso que, apesar de ainda jovem, já nos parece tão longo passa pelo início nas casas de fado – em que o seu nome era já dito com respeito porque o meio fadista sabe sempre quem é do Fado ou não é – e começa depois a passar por sucessivos patamares de consagração: vence duas Grandes Noites do Fado, integra colectâneas, lança os seu primeiros álbuns – “No Reino do Fado” (1998) e “Ricardo Ribeiro” (2004), que lhe valeu o Prémio Amália na categoria Revelação Fadista e o Troféu Revelação da Casa da Imprensa, participa em filmes e peças – no Teatro com destaque para "Cabelo Branco É Saudade", de Ricardo Pais, com um naipe de fadista veteranos ao lado (Celeste Rodrigues, Argentina Santos e Alcindo de Carvalho) e, no Cinema, numa cena de fado colectivo em “Fados”, de Carlos Saura… e que serviria de base para uma nova peça, “Casa de Fados”.
Mas, em 2008, dá-se um (quase que se diria natural) encontro importantíssimo na vida de Ricardo Ribeiro: o convite para integrar como cantor um novo espectáculo do respeitado mestre do oud (alaúde) libanês de jazz-música oriental Rabih Abou-Khalil. Um espectáculo - em que também participavam o acordeonista Luciano Biondini, o baixista Michael Godard e o baterista e percussionista Jarrod Cagwin - que viria a ser plasmado depois, em estúdio, no álbum “Em Português” (2018) e com Ricardo a cantar poetas portugueses. E aquilo que existia em Ricardo Ribeiro como intuição, como instinto, como emanação – a sua ligação a uma família musical maior e mais antiga que não se resume ao fado – ganhava assim corpo e som, intenção e explicação. Tomando Rabih Abou-Khalil como seu novo mestre, Ricardo começou a partir daí a incorporar todo um conhecimento das músicas orientais (ao lado do flamenco e do cante das nossas planícies do Sul) na sua própria música. E, talvez pelos caminhos dos destinos e dos fados, o sucesso absoluto de Amália em Beirute e no resto do Líbano na viragem dos anos 60 para os anos 70 tenha encontrado a sua continuação lógica neste encontro de Ricardo com Rabih, que só seria improvável se eles não soubessem dessa irmandade (quase) secreta.
"Porta do Coração" (2010; Prémio de Melhor Intérprete nos Prémios Amália), “Largo da Memória” (2013; onde participa Rabih Abou-Khalil e canta um poema de Hasan Ibn Al-Missîsi) e, premiado com o Prémio Carlos Paredes, “Hoje É Assim, Amanhã Não Sei” (2016; em que ao lado dos fados canta com os Ganhões de Castro Verde e interpreta poemas em espanhol e francês) são já discos em que estas ligações se sentem mais presentes e sempre crescentes – assim como nos dois temas que gravou com o guitarrista e produtor espanhol Javier Limon (produtor transversal a muitos dos géneros aqui referidos e que são irmãos ou primos entre si, com trabalhos feitos para Paco de Lucía, Carmen Linares, Estrella Morente, Concha Buika, Mariza, Yasmin Levy, Aynur…) para a colectânea “Amália – As Vozes do Fado” (2015).
Agora é tempo de Ricardo Ribeiro apresentar ao vivo aquela que é, até à data, a súmula mais que perfeita de tudo isto que ficou para trás: o novíssimo álbum “Respeitosa Mente”, em que o fadista é acompanhado pelo genial pianista João Paulo Esteves da Silva – que também fornece três poemas ao repertório, para além da composição de oito das músicas – e de… Jarrod Cagwin, seu bem conhecido companheiro e de Abou-Khalil, nas percussões árabes. Ricardo Ribeiro canta sobre os poemas (além de João Paulo são interpretados António Ramos Rosa, Giacomo Leopardi, Miguel Martins, Tiago Torres da Silva…) e toca guitarra clássica. O resultado? Só mesmo ouvido!










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