RODRIGO LEÃO 

Palco: Matriz Map
30 Junho, 22:15

RODRIGO LEÃO (Portugal)

De entre a geração de artistas – cantores, músicos, compositores, letristas… - surgidos na vaga do, então chamado, rock português que assolou o país no final dos anos 70 e inícios dos anos 80, são raros aqueles que podem declarar com rigor e honestidade que mudaram para sempre a música nacional. Rui Veloso – com a decisiva ajuda de Carlos Tê - é um deles, o núcleo criativo Tim/Zé Pedro/Kalu (Xutos & Pontapés) com certeza que sim, Rui Reininho (GNR) por ventura outro, João Peste (Pop dell’Arte), Nuno Rebelo (Mler Ife Dada) e Adolfo Luxúria Canibal (Mão Morta) eventualmente… Mas há dois que, para além de terem mudado o rumo da música nacional, mudaram-no decisivamente na direcção da redescoberta das raízes, da portugalidade, da alma escondida do nosso povo: Pedro Ayres Magalhães – que nos Heróis do Mar (muito mais do que nos seus anteriores Faíscas e Corpo Diplomático) cultivou esse lado da evocação de um imaginário cultural e histórico português – e Rodrigo Leão, que nos Sétima Legião, banda que fundou em 1982, ao lado de uma paixão clara pelas sonoridades mancunienses da Factory Records – principalmente pelos Joy Division – juntou um mergulho claro nas mais profundas tradições portuguesas, nomeadamente através de uma gaita-de-foles (de Paulo Marinho) que viria a aterrar no rock e que levaria, anos depois, ao ressurgimento deste instrumento em todo o país.
Os dois, Rodrigo Leão e Pedro Ayres Magalhães, viriam a encontrar-se em 1985 no mais importante grupo português das últimas décadas: os Madredeus. Embora mantendo carreira, respectivamente, nos Sétima Legião – com os quais gravaria todos os seminais, e progressivamente mais ligados à tradição popular portuguesa, álbuns da banda (o grupo continua a existir, com aparições esporádicas mas sempre celebratórias) – e nos Heróis do Mar. Mas foi nos Madredeus que o génio de ambos os compositores – com Pedro Ayres na guitarra clássica e Leão nas teclas, ajudados nos primeiros anos pela formação clássica e timbricamente mais rica de sempre do grupo (Teresa Salgueiro na voz, Gabriel Gomes no acordeão e Francisco Ribeiro no violoncelo) – levou a sua sonoridade para um território que, intuitivamente, lhes era comum e que, depois deles, seria também percorrido por dezenas e dezenas de novos artistas e grupos portugueses: uma música profundamente portuguesa mas também universal, em que o amor pelo fado, pelo cancioneiro tradicional rural e pelos grandes cantautores nacionais (com destaque para José Afonso) se juntava à música erudita, às músicas do mundo e à sua essência pop/rock. Com os Madredeus, Rodrigo Leão gravou os históricos primeiros álbuns, de “Os Dias da Madredeus” (1987) a “Ainda” (1995).
Mas faltava qualquer coisa a Rodrigo Leão: um projecto em que fosse ele próprio e a sua visão de uma música ainda mais aberta e universal do que aquela – e magnífica - que já tinha ajudado a criar, ao lado de outros, nos Sétima Legão e nos Madredeus. E, em 1993, editaria a solo o álbum “Ave Mundi Luminar” – a que se seguiriam o EP “Mysterium” (1995) e o álbum “Theatrum” (1996) -, obras pesadas e austeras, embora belíssimas, que mostravam a sua paixão pela escola cinemática e minimal-repetitiva de Philip Glass, Michael Nyman e Wim Mertens, pela ópera e até pelo canto gregoriano. Uma matriz inicial da sua obra que, ao longo destes mais de vinte anos que se lhes seguiram se estilhaçaria em milhares de direcções musicais e sonoras. Com uma discografia longa e impoluta em nome próprio, Rodrigo Leão criou um corpo autoral próprio e pessoalíssimo que lhe valeu o sucesso imediato em várias zonas do planeta e dentro de portas. Compondo sempre, e sempre melhor, convocou para as suas obras alguns dos melhores músicos e cantores portugueses e estrangeiros – de Rui Reininho, Lula Pena, Sónia Tavares e Nuno Gonçalves (The Gift), Celina da Piedade, Ana Vieira, Tó Trips (Dead Combo) e Miguel Filipe (Novembro) a Beth Gibbons (Portishead), Ryuichi Sakamoto, Rosa Passos, Adriana Calcanhotto, Neil Hannon (Divine Comedy), Stuart Staples (Tindersticks), Melingo, Scott Matthew – o cantor australiano com quem também gravou em dueto o recente álbum “Life is Long” –, Thiago Petit ou Joan as Policewoman.
Mas, quando se fala de Rodrigo Leão e da sua obra, é também obrigatório falar do seu lado de compositor de uma música cinemática que tanto se revela nas suas composições da discografia, digamos, normal – e tal como já se revelava em “Ainda”, dos Madredeus, cujas canções são também a banda-sonora do filme “Lisbon Story”, de Wim Wenders – como em bandas-sonoras importantes que tem composto ao longo da sua carreira, com destaque para a série de televisão “Portugal, um Retrato Social” (2007), o filme “Njinga, Rainha de Angola” de Sérgio Graciano (2013) e dois grandes sucessos cinematográficos internacionais: “A Gaiola Dourada”, de Ruben Alves, e “O Mordomo”, de Lee Daniels (também ambos de 2013). E, na sua voracidade criadora houve, entretanto, ainda lugar para um outro projecto colectivo (onde também Gabriel Gomes e Francisco Ribeiro, entretanto prematuramente falecido, viriam a participar), Os Poetas, que celebravam – nas várias aparições que tiveram - as palavras imortais de autores como Mário Cesariny, Herberto Hélder, Adília Lopes, António Ramos Rosa, Al Berto e Luiza Neto Jorge. É um orgulho para o Med de Loulé receber pela primeira vez este grande senhor da música portuguesa e mundial – e Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique – no Med de Loulé.









Organização

Parceiros Media


Parceiros